Segunda-feira, Novembro 10, 2008
[O Zero Absoluto]
CLXVIII.
Imaginemos uma cena. A minha mão repousa sobre a sua perna. A minha mão é branca, cheia de veias azuis, com unhas nas pontas dos dedos. Os dedos são cinco, pois sou bem-formado. Eu sou bem-formado, aliás, como um todo. Satisfatoriamente, ao menos. Fisiologicamente. Os meus braços são dois, um de cada lado, e as pernas também, embora não brotem do mesmo lugar que os braços. O que não me preocupa. A minha cabeça, antes de repousar sobre os ombros, estica-se por cima de um pescoço magro e parece, vista de certa distância, uma melancia se equilibrando sobre um palito de picolé. Mas não sou um picolé e nem uma melancia, quem dirá ambos, e nem conheço quem o seja. O suficiente tendo sido dito sobre mim, passemos a você. A começar pela perna. A sua perna é azul, cheia de veias brancas, com unhas nas pontas dos dedos. Os dedos são cinco, pois você é bem-formado. Você é bem-formado, aliás, como um todo. Satisfatoriamente, ao menos. Fisiologicamente, ao menos. Porém azul. Os seus braços azuis são dois, um de cada lado, e as pernas também, embora não brotem do mesmo lugar que os braços. O que não lhe preocupa. A sua cabeça, antes de repousar sobre os ombros, estica-se por cima de um pescoço azul e parece, vista de certa distância, uma melancia azul se equilibrando sobre um palito de picolé azul. Mas você não é um picolé e nem uma melancia, quem dirá ambos, e nem conhece quem o seja. O suficiente tendo sido dito sobre você, passemos ao Zero Absoluto. A sua mão é transparente, cheia de veias transparentes, com transparências transparentes na ponta do que intuímos serem dedos. Os dedos devem ser cinco, pois se supõe que é bem-formado. Supõe-se que é bem-formado como um todo, aliás, ao menos satisfatoriamente, ao menos fisiologicamente. Os seus braços devem ser dois, um de cada lado, e as pernas também, embora não brotem do mesmo lugar que os braços. O que não nos preocupa. A nossa cabeça, antes de repousar sobre o Zero Absoluto, estica-se por cima de um pescoço transparente e parece, adivinhada de certa distância, uma bola de neve contra um campo nevado. Ou um pedaço de carvão no escuro. Ou uma arara azul voando num dia fortemente azul. Você entendeu. Imaginemos uma cena. A minha mão repousa sobre a sua perna, que repousa sobre a mão do Zero Absoluto. Ela treme. Você o sente? Você o quer? Você o levaria pra passear todos os dias? Como um bom garoto? Ela é fria? Quente? Cósmica? Trivial? Embestalhada? Pródiga? Civil? Você é um bom garoto? Se é, o que a sua perna está fazendo sobre a mão do Zero Absoluto? O que a sua perna está fazendo sobre a mão do Zero Absoluto e embaixo da minha? Quem é você? Aliás? E qual é o seu signo? Imaginemos uma cena. Eu recolho a minha mão, ao que a sua perna cai. A culpa é minha? Dele? Sua? Nossa? Imaginemos outra cena. O Zero Absoluto recolhe a sua mão, e a sua perna cai. A culpa é minha? Dele? Sua? Nossa? Imaginemos outra cena, a terceira e última nos termos desta permuta. Você recolhe a sua perna, ao que as nossas mãos caem. A culpa é sua. A culpa é toda sua. Você não é um bom garoto. A sua cabeça é azul, vista de certa distância, e repousa sobre um pescoço azul que visto de certa distância repousa sob a sua cabeça azul. Você é um mau garoto. O seu signo é um mau signo. A sua mão azul repousa sobre as nossas pernas, a minha e a do Zero Absoluto. A sua mão é azul, cheia de veias brancas, com unhas azuis nas pontas dos dedos. Os dedos são cinco, pois você é bem-formado (embora azul). Você é bem-formado, aliás, como um todo (embora azul). Satifatoriamente, ao menos. Fisiologicamente, ao menos. Os seus braços são dois, um de cada lado, e as pernas também, embora não brotem todas do mesmo lugar. O que não preocupa a ninguém (pois você é um mau garoto). A sua cabeça azul, antes de repousar sobre os ombros, estica-se por cima de um pescoço azul e parece, vista de certa distância, ser de outra cor, um tom mais fraco de rosa, ou magenta, mais pra magenta. As suas mãos repousam sobre as nossas pernas, que repousam sobre os estofamentos recentemente renovados de uma causeuse Luis VIX. Ela é vermelha. Você é azul. Você é um mau garoto. A causeuse é um bom garoto. A diferença entre vocês vai além da cor, você pensa, encabulado. A sua cor se torna magenta e as nossas cabeças caem. Você o sente? Você o quer? Você nos levaria pra passear todos os dias, como um bom garoto? Embora seja mau? Embora seja azul? Ou magenta? Como uma urna funerária? Pesada e negra? Sobre o mármore? Sobre o mármore da lareira? Imaginemos ainda uma outra cena. O Zero Absoluto tosse, e as cores mudam. A sua tosse é roufenha, amarga, compenetrada de si mesma. Dir-se-ia grave, mórbida mesmo, se tosses falassem. Ela é comprida e tem unhas transparentes nas pontas. São cinco pontas, aliás, eis que é bem-formada. Ela é bem-formada como um todo, três braços, duas pernas, embora nem todos os seus olhos se acertem de olhar pro mesmo lugar ao mesmo tempo, e a sua cabeça, vista de certa distância, parece um pedaço de papelão montado como uma caixa. Mas ela não é um pedaço de papelão, quem dirá montado como uma caixa, e nem conhece quem o seja. A cabeça da tosse, antes de repousar sobre os meus ombros, entra pelo seu ouvido azul e sai pelo magenta. As unhas translúcidas rasgam os tímpanos. Como o grasnar da arara. O suficiente tendo sido dito sobre a tosse, passemos pra arara. Ela é azul, como você, e repousa no poleiro. A culpa é sua. O suficiente tendo sido dito sobre a arara, passemos mais uma vez pro Zero Absoluto, nos termos desta permuta. Você o sente? Você o quer? Você reprimiria uma tosse pra não interromper o seu discurso? Se sim, a tosse de quem? De que cor? Signo? Validade? Origem? Benéfica ou não? Maléfica ou não? Intermediária? Infravermelha? Com quantos Zeros se faz o Zero Absoluto? Imaginemos outra cena. A arara está pousada sobre o descanso pro braço da causeuse. É uma causeuse Luis XIV com unhas nas pontas. Cinco pontas, aliás, eis que é bem-formada. Ela é bem-formada como um todo, ao menos satisfatoriamente, fisiologicamente. Os seus braços são dois, um de cada lado, e as suas pernas também, embora não brotem todas do mesmo lugar. O que não preocupa a ninguém, pois é uma boa causeuse. A arara, antes de repousar sobre a sua cabeça, repousa sobre o seu braço, segundo já referido, nos termos desta permuta. Dir-se-ia, vista de longe, um papagaio verde, em oposição a uma arara vermelha, que é o que é, se araras se dissessem. O suficiente tendo sido dito sobre a causeuse, retornemos a mim. Quem sou eu? Eu o quero? Com que autoridade? Qual é a minha culpa? Sua? Nossa? Com quantos Zeros se faz o Zero Absoluto? Você sabe? Não sabe? Prefere não opinar? Por quê? Imaginemos outra cena, nos termos desta permuta. A minha mão repousa sobre a minha arara, que está empoleirada sob a causeuse, debaixo da sua perna, em cima das suas costas e o terceiro braço esticado pra alcançar alguma coisa. É um braço comprido, pois é bem-formado, com unhas na ponta. São cinco unhas, é uma boa causeuse, a arara voa, você é magenta. Você recolhe a perna e uma pequena cabeça humana se revela no estofamento recentemente renovado da causeuse vermelha. Você é azul. O que você faz? Por quê? Como uma urna funerária? Vermelha? Magenta? Dentro de um tímpano? Ao redor? Sobre? Em pé? Sentado? Por quê? Por que azul? Por que arara? Por que eu? Por que humano? Imaginemos outra cena.
|
Quarta-feira, Agosto 27, 2008
[fachada vermelha (conto abortado)]
CLXVII.
Quando eu quero pensar que não há perigo, qualquer coisa assim se produz e então não se pode mais falar, eu acho, em pensar, em querer, em se produzir. As cores são o último refúgio. Ao vermelho, com dores no coração, ou no que o valha, dedico o meu tempo. Ele se manifesta em pedaços de papel colados na parede. Mas não só. Nos meus braços também, e nos seus, e nos dos outros, de quem quer que seja uma pessoa e se pretenda digna do nome, me dizem, quem quer que almeje ostentar dentro do peito um “coração”. Uso aspas. Não sei por quê. Sei, sim, é claro que sei, mas reluto em dizer, ah, tanto faz, direi assim mesmo, é porque, nas circunstâncias, quaisquer que sejam elas, não está claro, é impossível determinar nas atuais circunstâncias o que é dentro, ou seja, coração, e o que é fora, isto é, o resto. Talvez seja possível, afinal, afinal tudo é possível, em certo grau, não é? Mas não faz sentido. Tal é a “situação”. Talvez se eu contar o que me aconteceu, o que não estou certo de poder fazer, mas provavelmente tentarei, já que, bem, não sei. Entrei aqui há mais de um ano. Estivera durante meses fugindo de um grupo de pessoas. Elas estavam quase nuas. Não propriamente quase nuas, cumpre notar, mas bastante desprovidas de roupas, queira isso dizer o que queira. Não sei por que me perseguiam. Talvez se tivesse parado de correr, acho-o provável, aliás, elas também tivessem parado imediatamente, parado para dar meia-volta, para pensar, para espairecer. No entanto, eu estava bem vestido. Desconfio que tenha sido essa a causa, que o grupo estivesse atrás das minhas roupas. Eu não queria entregá-las, evidentemente, e isso por várias razões. Primeiro porque eu as ganhara do meu pai. Segundo porque eu me sentia bem nelas. Terceiro porque fazia frio. Quarto, calma, a lista não será exaustiva, a quarta razão é a última. Quarto porque, por baixo das minhas roupas, o meu corpo estava nu, o que é dizer que, tirando-as, eu me tornaria nu, ou seja, poderia me juntar ao grupo que me perseguia. Se isso acontecesse, raciocinei, bem, não sei se eu agüentaria que acontecesse, não sei se agüentaria o desconforto paradoxal de ser ao mesmo tempo um, oprimido, e vários, opressores. E tampouco desejo que alguém o saiba, algum dia. Mas você se engana em considerar o antes e o depois, argumentarão, antes, quando você estava vestido, e depois, depois que tirou as roupas, em considerá-las, vocês iam dizendo, tempos divisórios de situações inserido nas quais você viveu concomitantemente, sendo um só e dois ao mesmo tempo, enquanto que, na realidade, continuarão, enfadonhos, o antes é antes, e o depois, depois. O engano é de vocês. Ou talvez não seja engano, talvez estejam com a razão. Mas má vontade, certamente. Porque, podia eu pensar assim tão reta, tão reta e sofisticadamente, enquanto fugia daquele grupo de pessoas seminuas? Adiantarei sem mais a resposta, não, não podia. Bem vestido, portanto, e metafisicamente apavorado, dobrei uma esquina e entrei nessa casa. Muito tempo se passou, pude notar algumas coisas, as quais passo a enumerar. Uma, aqui se adota esse método inaudito de separar as pessoas e coisas boas das ruins, o método de colar um papel vermelho em algum lugar. Das pessoas ou coisas, digo. E as paredes, aquelas dignas do nome, as providas de corações e peitos, esteja visto, e muito bem visto, recebem também a honra. Porque, É uma honra, ter coração, ter peito, e ainda mais, me dizem, me dizem repetidamente, e ainda mais poder dividir o peito e o coração, alternadamente, e, isso é glosa minha, ainda mais os dois ao mesmo tempo, com pessoas desejosas de dividir os seus próprios, isto é, os seus peitos, os seus corações, não é? Eu respondo, O.k.. Respondia, desculpe. Mas eu não sabia exatamente o que eles entendiam por “coração”. Isso me frustrava, de início. Para os outros, esse parecia ser um conceito claro como a gosma translúcida com que eles nos alimentavam todas as manhãs, refratando o sol se infiltrando pelas janelas gradeadas em sete, já contei oito, acho, cores, as do arco-íris, e mais uma, suponho. Eu dizia, O.k., e, internamente, dizia, O.k., mas em algum lugar, não chegarei a dizer que disse o que não disse, tampouco que pensei, que seja, Eu não entendo o que eles querem significar quando dizem “coração”, não, não cheguei a pensá-lo com essas palavras, muito menos com as aspas. O que eu fiz, se fiz alguma coisa, foi desconfiar enormemente, bem como da gosma translúcida, do que me diziam, toda vez que me diziam que É uma honra, ter coração, ter peito, e ainda mais etc.. Desconfiar sem palavras, repousar devagar a colher no prato, fixar bem a gosma, franzir o cenho. Não tinha ânimo para comer aquilo. Repousava um pouco, esperava que os outros tivessem se retirado aos seus aposentos. Pois tanto quanto a idéia de comer a minha gosma, ver os outros comerem as suas me causava nojo. Ficava sentado, olhando para baixo, portanto. Eles começavam a se retirar. Mas andavam devagar, devagar, quase parando... Evidente que depois, cansado de ser teimoso, eu engolia os dois, sem sequer achá-los tão ruins assim, a gosma e o lema barato. Porque, e esta é talvez a coisa Dois que eu faço notar nessa nossa enumeração, se não se constituía em lema oficial daquela casa, nem por isso a frase sobre os corações e dividi-los e o bom que é dividi-los se fixava menos na superfície dos nossos cérebros, a força,
se entalhava em nós feito um lema, feito um lema propriamente dito. Creio que, se estampassem a frase numa faixa e a pendurassem de modo que escondesse um pouco a fachada, uma fachada branca, de cal batido, amarelada, quase marrom, o conjunto, o que digo?, se se trata antes de um galpão, o galpão ganharia um pouco em harmonia, perderia em simpatia, em apelo, em, para aplicar um termo moderno, taxa de aceitação e tolerabilidade por parte de passantes eventuais, ou seja, colocado de outro modo,
viabilidade, pro inferno, pouco importa.
|
[Jeannie (conto abortado)]
CLXVI.
A guerra acabou ontem, mas estamos aqui há muito tempo. Jeannie, em quem não sei se posso confiar, mostrou-se irritadiça. Sempre foi irritadiça, ontem se mostrou verdadeiramente psicótica. Talvez seja o provimento de arroz. Gratuito em tempo de guerra, não tanto agora. Jeannie sempre se importou. Apesar de termos vencido, a guerra acabou com a nossa despensa, temo dizer. E, ninguém aqui para me encorajar, eu não sei se, uma das duas, deixo de comer, ou, ou o quê. A situação não pode continuar assim. Que situação, que assim, do que é que eu estou falando? Ando enfrentando problemas para me identificar. Jeannie carrega esses cartões amarelos para lá e para cá com o meu nome, o meu endereço, o meu estado civil, um resumo em três orações da história da minha vida até agora e uma ou duas frases dentre as que eu mais repito. A quantidade varia, na verdade, de pessoa a pessoa. Eu recebo duas por ter sido bem educado. Enquanto os outros, a maior parte deles recebe uma, porque por sua vez não foram bem educados. O Sr. Quincadópolus, meu vizinho de cama, no entanto, recebe três. Eu me mordo de inveja. Jeannie entra freqüentemente no nosso quarto, aliás, quando estou me mordendo de inveja. Ela tem um faro? Acredito que sim. Vê-me dilacerando os lábios e a base inferior do nariz com os caninos, geralmente, eles são os meus preferidos dentre todos os dentes pela agudeza de espírito e outras coisas que representam, mas principalmente pela agudeza. Os meus caninos são mais afilados, mais perigosos, em resumo mais horrendos do que os dos outros, talvez os mais bem horrendos dessa instituição. Tendo perdido o hábito de escovar os dentes todos os dias, ou ao menos todas as semanas, grande parte dos meus companheiros de quarto nem carrega mais canino algum. O único capaz de rivalizar comigo nesse quesito é o Sr. Quincadópolus. A quem, no entanto, falta a fibra de dirigir esgares hostis às enfermeiras. Às vezes eu penso que a coisa é inata. Imagine-se que no meu cartão está escrito CUIDADO. Ao passo que, no de Quincadópolus, o mesmo campo encontra-se vazio. Um ponto para mim. Mas não se considere que somos inimigos, muito pelo contrário, muito pelo contrário, obrigado. Torcemos para o mesmo time, por exemplo. O nome do qual esquecemos há muito. Em dias de jogo, escapa-me momentaneamente o esporte, veja só, Jeannie senta-se ao pé das nossas camas, entre uma e outra, para assistir conosco. Mas desconfio dela, de modo que não consigo me concentrar. Quincadópolus, pelo contrário, concentra-se, ah sim, nas pernas, nas pernas de jeannie, que eu sei. Não que eu não tenha vontade de fazê-lo, mas por favor, em tempos de guerra. Desconfio que ela seja uma espiã. Não saberia dizer a sua nacionalidade, ela fala com um sotaque volúvel. Poderia talvez restringir o meu campo de escolha limitando as nacionalidades que se lhe imputariam caso ela fosse uma espiã, ou seja, a nacionalidade dos países contra quem guerreávamos, mas na verdade não posso, não posso. Porque eu não sei em que país estamos, nem ao menos através do critério de eliminação. No entanto isso não me parece importante. Nós já fomos amantes, é claro, todos aqui algum dia já foram amantes de Jeannie, alguns até meus. Se por ora não sou amante de ninguém, é porque não consigo me concentrar nisso. Não que eu conseguisse antes, nunca consegui me concentrar em amantes, quanto mais em mais de um no mesmo quarto, sofrendo da mesma doença, isso me dá nojo. Nem me dá propriamente nojo, é difícil dizer, diria impossível. Mas também não é isso. Jeannie cuida de todos nós, inevitável dormir com ela. Não obstante, ela não quer dizer qual é a doença de que sofremos. Por mais que ameacemos tocar fogo aos colchões enquanto gritamos quanto a amávamos. Fazemos isso semanalmente, tal é a nossa vontade de saber. Mas creio que ela contou a Quinca, com quem, de resto, tem dormido repetidamente nos últimos tempos, muito mais que de hábito. De vez em quando ela ainda dorme comigo, mas sem vontade, sem muita vontade. Dizemos amávamos, dizemos amor, mas não sabemos o que é isso, nós os doentes, nós os doentes desse quarto pelo menos, nem desconfiamos. Tenho reparado que a nossa condição nos obriga a mentir, é um dos sintomas mais evidentes. Procuraria por doenças responsáveis pela mentira se tivesse aonde ir procurar, se soubesse ler, não digo nem escrever mas ler, se soubesse o que significa procurar e, finalmente, se, se o quê. Em resumo, se não estivesse doente.
Mas estou, e muito. Sinto-o perfeitamente.
|
[Houston (conto abortado)]
CLXV.
Houston telefona outra vez. Sei muito bem o que quer. Deixo a máquina responder que estou no banho, estou fora, estou muito ocupado tentando resolver um problema gravíssimo no sistema de combustão, favor deixar recado. Não deixam. Nunca.
A fúria de Houston.
Devem estar furiosos comigo, devem sim. Não vou atender. Pode ser que não, que só queiram me ajudar, que seja como dizem... Mas nada disso é exato. O fato, se querem saber, o fato é que cheguei a Saturno. Sozinho. Depois de muito tempo de viagem, muitíssimo, não lembro quanto. Isso não é algo que se possa tirar de mim tão facilmente. Serei o primeiro homem a colocar os pés em Saturno. Sozinho.
Sozinho sozinho sozinho sozinho sozinho, ouviram bem?
Ao longe, durante vários meses, via o planeta cercado por seus anéis. Por negligência, admito, não calculei como devia o efeito que eles causariam no meu campo de visão. Eles eram tão bonitos. Tão, tão bonitos. Mas foderam tudo.
Consagrei-me a observá-los por tempo demais. Dias a fio, se não semanas, se não meses. Reclinei o meu assento o quanto pude e, usando o cinto, é claro, porquanto flutuar por aí já deixara de me divertir havia muito, observei-o. Não dormia, não comia, só observava.
Foi por essa época que deixei de atender o telefone. Não via por quê. Houston é o único que me liga, a única coisa que me liga, todos os dias, à mesma hora, horário terrestre, esse mais mal resolvido resquício da Idade Média. Houston parecendo uma mãe judia. Eles só querem o meu bem, só querem o meu bem, portanto obedeça, eu me dizia, atenda o telefone, dê-lhes mais uma chance... Mas tudo o que eu me dizia, a essa época, encarando os anéis, eu me dizia distraidamente, com a cabeça alhures. Cheguei a Saturno, ou quase cheguei a Saturno, sozinho.
Pois bem, sou o verdadeiro astronauta.
O astronauta
par excellence.
Que seja.
*
Uns duzentos mil quilômetros distante do solo, o painel apagou. Bati contra ele com tudo o que tinha à mão. Ele soltou faíscas, foi só. Recuperado do primeiro susto, tentei consertá-lo como se deve. Tentei várias vezes. As minhas tentativas falharam. Então preparei um drinque e me reclinei um pouco mais na poltrona.
A minha poltrona oferece o melhor descanso que se pode imaginar, se vocês querem saber.
Por isso, pela gratidão decorrente disso, genuína, devia talvez ter atendido os telefonemas.
Mas não só por isso. A minha espaçonave inteira é o sumo do conforto como concebido pelos terráqueos. Houston foi bom para mim, num certo sentido. Sim, muito bom.
Mas não vou permitir que controlem a minha vida para sempre.
O planeta cresceu pouco a pouco no visor. Chegada a hora, pousei como pude, segundo me ensinaram, sem cometer deslizes, sem hesitar.
Espero pela hora do desembarque.
|
Segunda-feira, Julho 21, 2008
[o aniversário de FDSSADF]
CLXIV.
Definitivamente, dezoito anos completos, não há nada que se possa fazer por FDSSADF, esse menino, não, digamos melhor, esse navio, se nos permitem a imagem, que, tendo avançado a passo regular, se não francamente firme, mais ou menos seguro, todos esses anos afora (ou deveríamos dizer adentro?), encontra agora à sua inquestionável frente um iceberg, se nos permitem a imagem, contra o qual o choque é inevitável, ou assim nos parece, assim como o subseqüente naufrágio ao fundo do Pacífico, porque pacíficos (em maior ou menor grau) foram os mares até agora navegados, se nos permitem a imagem, onde o provável é que descanse por todo o resto do tempo como concebido pelo homem, ou pelo menos enquanto houver tempo, enquanto houver Pacífico, mas em primeiro lugar, sendo a consciência humana essa matéria de que todas as outras coisas são feitas, enquanto houver homem, se nos permitem a imagem! Assim se acha por bem colocar a situação de FDSSADF, antes de qualquer outra coisa, para situá-los, no primeiro parágrafo. Um suntuoso primeiro parágrafo.
Na verdade não é nada disso.
Mas o tempo urge, e, portanto, vamos dar início imediato à história propriamente dita.
AVISO. Este conto abusa de metalinguagem e desconstrói.
Ao contrário daquilo que poderia dizer sobre FDSSADF com qualquer propriedade alguém que o conhecesse, que o conhecesse mais ou menos a fundo – sejamos justos, estava enganosamente estampado na cara do moleque, a data de validade expirada, o leite azedando e azedando –, ele não andava pensando em se matar. No dia do seu aniversário de dezoito anos, então, não se justifica que o tenham metido numa camisa-de-força. Muito menos que, tendo o metido numa camisa-de-força, tenham saído sorrateiramente do seu quarto, pé ante pé, como se diz, o que, na nossa opinião, é um pleonasmo, pois é pé ante pé, e não de nenhuma outra maneira que se possa imaginar, e à revelia dos românticos flutuantes, que se anda. FDSSADF só foi acordar muitas horas mais tarde, e nem então se deu conta dos fatos. Que fatos?
Primeiro, que era seu aniversário.
Segundo, que estava metido numa camisa-de-força.
Terceiro, que não havia motivos, se não que justificassem o primeiro fato, que justificassem pelo menos o segundo. Cumpre lembrar, ele não andava considerando o suicídio.
Quarto, que não havia motivos para que, o trabalho de metê-lo numa camisa-de-força tendo sido cumprido, saíssem do seu quarto pleonasticamente.
Quinto, que pé ante pé é uma expressão pleonástica.
Sexto, que azedava a olhos vistos.
Sétimo, que
Bem, numa palavra, os fatos de que FDSSADF não se deu conta sendo virtualmente infinitos, diremos que FDSSADF não se deu conta – e isso sim é o que importa – dos fatos que lhe importavam imediata e diretamente. Sendo estes, a grosso modo, ao nosso modo, esses.
Em frente, pé ante pé. No dia do seu aniversário, logo depois de acordar, FDSSADF desceu as escadas como fazia todos os dias, sem mais nem menos, não dando nem por si, nem por mais nada. Minutos depois, entretanto, longe de ser completamente idiota, deu pela impossibilidade de almoçar, não logrando estender o braço para, com a mão tesa, agarrar num ímpeto, ameaçadoramente, o garfo e a faca, como fazia todos os dias. Ameaçadoramente em termos, fique claro. Pois FDSSADF era franzino feito uma vara; assustar crianças cujo número de anos de vida já tivesse alcançado os dois dígitos, por exemplo, não era algo que a sua constituição lhe permitisse. E mesmo frente a essa impossibilidade (a de almoçar), FDSSADF não chegou a compreender a situação no seu triste todo. Talvez não estivesse tão longe de ser completamente idiota, afinal. Os presentes à mesa (os mesmos de sempre) tiveram então a oportunidade de testemunhar um espetáculo sem-igual, a não ser talvez em sanatórios devidamente reputados como tais: o de FDSSADF enfiando (outra vez) ameaçadoramente (em termos) a cara no prato e se virando como podia para comer a sua papa, como fazem os porcos, que não têm nem braços, nem mãos, muito menos dedos. Pobres porcos!
E pobre FDSSADF!
Pobre, de fato. A casa em que morava era tão pobre que não tinha portas: elas haviam sido arrancadas pela última tempestade, e o dinheiro que a família mantinha guardado num pote, à falta de cofrinhos, não fora o suficiente para comprar outras. Mas as tempestades, como a pobreza, os cofres, o dinheiro e os potes cheios dele, sempre ocorreram e sempre ocorrerão, razão porque não entraremos em detalhes.
Lavaram-lhe o rosto, enxugaram-no e, ato contínuo, meteram-no de volta na cama. Inclinando-se levemente ao pé do seu ouvido esquerdo, sussurraram um feliz aniversário. Depois se retiraram. Deixaram a luz apagada, as cortinas fechadas. Era seu aniversário. Então, alimentado e no escuro, no silêncio e no conforto relativo que é estar de braços atados na penumbra da própria cama, FDSSADF teve oportunidade de pensar, de começar a pensar e querer entender o que acontecia. Mas tarde demais, porquanto o telefone tocou!
Ao primeiro soar, FDSSADF entrou em frio desespero. Remexeu-se sob as cobertas (haviam lhe jogado cobertas por cima, visando talvez dificultar-lhe a saída da cama); debateu-se como pôde, travando uma verdadeira luta contra aqueles leopardos de seda e lã; quando, afinal, conseguiu se livrar desse primeiro obstáculo, gingou para fora do estrado, as pernas bem abertas, e, sem mais, BLAM!, lá se encontrava, no chão, ao lado do telefone, mas mais para baixo, ouvindo-o soar pela segunda vez. A cena se desenrolara rapidamente, afinal. FDSSADF juntou-se do chão realizando sucessivamente os movimentos e atingindo as posições que descreveremos, na ordem em que descreveremos: rodopiar dos quadris de modo a atingir a posição de minhoca (também denominada posição “de bruços”); transferência do eixo de gravidade para a bunda, esta elevada a um ou dois níveis acima do resto do corpo, enquanto o peso do mesmo recai sobre os joelhos e a testa; elevação do tronco a um ou dois níveis acima da posição designada relativa da bunda; subseqüente (pé ante pé) alcançar da posição de cavaleiro da távola redonda sendo consagrado como tal pelo Rei Arthur (também denominada, modernamente, “Posição de Proposta de Casamento” – embora, cumpre notar, a posição de FDSSADF não preenchesse completamente os requisitos impostos tanto por uma quanto por outra, em razão da camisa-de-força); por fim, um lento e temerário colocar-se de pé atingido através da tesão por assim dizer simultânea dos membros inferiores (também denominados “pernas”), ao cabo do qual, bem, o que dizer, o que dizer para fechar mais este parágrafo?
Bravo! Bravo! Bravo!
Mas, e ao mesmo tempo, alas! – encontrando-se justamente de pé, e colocando pé ante pé de modo a se aproximar do telefone numa velocidade não mais que aconselhável pela prudência, FDSSADF mais uma vez não logrou esticar os braços, o que lhe teria possibilitado ATENDER A PORRA DO APARELHO. Procurou-o entretanto com a boca; mordeu o receptor, tencionando puxá-lo para cima. Sem sucesso, é claro. Notem agora como ficamos mais e mais cínicos. Mordeu então o fio que se conectava ao receptor e puxou-o com toda a força para trás...
O resultado dessa empresa, para encurtar, foi um choque e um desfazer de todo o feito pelo qual o louvamos no antepenúltimo parágrafo. Louvamo-lo em vão.
Enquanto FDSSADF se recupera, caído ao chão e semi-consciente, cuspamos nele.
Rwaaaaarpt! Rwaaaaarpt! Rwaaaaarpt!
N.E. Parece-nos incrível que ouvidos tenham pés. Não obstante, é o que se verifica.
Ao cair, o telefone se quebrara. Talvez tenhamos cuspido prematuramente no pobre FDSSADF. Pois, apesar de não ter conseguido atender a ligação, conseguiu devolver o quarto ao silêncio. E não era esse o seu propósito inicial? Não era para pensar sobre a sua situação, e somente para isso, que resolvera se levantar e atender o telefone? No silêncio, pensava; no barulho, não. Isso era certo. Se tivéssemos como voltar atrás, ou, alternativamente, reparar os danos ocorridos no passado, não pediríamos mais que isso, provavelmente teríamos segurado o cuspe, na primeira hipótese, ou então, munidos de um paninho e de um pouquinho de alvejante, na segunda, acorreríamos a FDSSADF, limparíamo-lo de toda a injustiça, depositando-o inclusive sobre a cama em que, extenuado pelos esforços já descritos quando do seu levantar-se, não via maneira de trepar. Mas, por um sem-número de razões, isso não é possível – nem voltar atrás, viajando no tempo, nem reparar os danos cometidos no passado. Uma delas (das razões), e talvez a mais pertinente: porque somos só os impotentes espectadores das desgraças que se despejaram sobre FDSSADF no dia do seu décimo oitavo aniversário, e não seus amigos ou parentes. De resto, não sabemos nem como, nem onde, nem por que estamos aqui; parece-nos que, se X precisa de ajuda (sendo X considerado como uma variável humana dentre o conjunto de humanos sobre ou sob a superfície da Terra), o trabalho deve ser obrado preferencialmente por Y (?), que é mais esperto, generoso e bonito do que Z (o[a] leitor[a]); enfim, digamo-lo sem remorsos, cumpre delegar essa caridade a gente mais capacitada, que esses dificilmente vão ser tão rápidos em estragar tudo.
Sozinho e extenuado, de barriga para cima, FDSSADF descansa no chão do seu quarto. Agora, no silêncio e no conforto relativo que é descansar estirado no chão com os braços atados, ele se acha na iminência de pensar. Isso é, de pensar como se deve. Não se imagine que FDSSADF não pensa nas horas vagas, só por distração; FDSSADF não faz de maneira nenhuma o tipo afásico, característico das pessoas em geral. O seu aparelho de pensar, diga-se, é altamente prodigioso. Pena que tanto prodígio acarrete, em FDSSADF, uma falência geral dos sentidos. Quando pensa, ou seja, a maior parte do tempo, FDSSADF se vê envolvido como que numa nebulosa sensorial: não sabe o que se passa, simplesmente não sabe o que se passa ao redor. Quando pensa propriamente, então!
A anedota é corrente: a segunda lei da termodinâmica foi a primeira sucessão complexa de palavras proferida por FDSSADF, aos sete anos, enquanto assistia a um programa policial-realidade.
De onde tirara isso, ninguém sabia. Havia muitas enciclopédias por aí, e a TV, não se pode confiar em tudo que ela diz. Os armários foram revistados, e também as camas, as luminárias – nada, enciclopédia nenhuma, dicionário nenhum, nem mesmo um único exemplar de Madame Bovary. O espanto redobrou; depois de jogarem fora a TV, num episódio comparável ao de um vilarejo francês que queima uma feminista (seria caso, aqui, de trocar feminista por puta, não fosse os franceses esses incorrigíveis garanhões), resolvendo-se a incentivar o dom da criança, a família de FDSSADF gastou todo o dinheiro do pote em livros e mais livros pertencentes à área do saber a que se julgavam geneticamente aptos, a saber, o misticismo. Isso deu em duas coisas:
1. Galinhas mortas, aos treze;
2. Um acúmulo excepcional de cumulus nimbus pairando permanentemente, durante o outono, o inverno e grande parte da primavera, sobre a casa em que moravam.
Dado o status de que os conhecimentos do oculto desfrutam modernamente, era de se prever, não obstante os sucessos do garoto, que seu destino calharia de ser dos mais miseráveis – tornar-se-ia, na melhor das hipóteses, guru de celebridades, e, na pior, mero cartomante de rua. Portanto foi sorte que FDSSADF, tendo se cansado espontaneamente dessas bobagens, e sem pensar por um segundo em como ganharia a vida, passou a freqüentar a biblioteca pública da cidade. Travou contato então com praticamente todas as outras áreas mais tradicionais do saber. Aos quinze anos os seus aforismos, em número aproximado de novecentos, versavam sobre assuntos os mais variados: da Economia à Bricolagem, da Cientologia à Teoria das Nações, passando pela Filosofia, pelas Artes, pelo Aeromodelismo...
Pouco a pouco se estabelecia entre a família um culto silencioso a FDSSADF. (A isso contribuíam, faz-se mister notar, os cumulus nimbus, que se recusavam a ir embora.) Nesse culto, entretanto, como em tantos outros, os ídolos brilharam mais que o Deus. Na medida em que, enquanto criança, criatura de ternura e bolhas de baba, FDSSADF nunca vira os seus anseios satisfeitos, passou a se esperar que, em congressos científicos a que era constantemente convidado e remetido pelos pais na companhia de uma babá caquética, proferisse discursos geniais, enunciados biológicos inéditos e acurados, teoremas matemáticos perfeitos e coisas assim. Proferia-os de bom grado, a torto e a direito, e é claro que, nessas ocasiões, se sentia o Einstein vagamente confundido com o Rui Barbosa, vagamente confundido com Da Vinci (e mais uma pitada de Antônio Conselheiro vagamente confundido com McCaulay Culkin) que os outros o imaginavam. Mas, voltando para casa...
Ah, melancolia! Esperava abraços, carinhos, festinhas na cabeça etc.; o que recebia era um golpe de sobrancelhas, um olá, um acenar ausente e duro das mãos. No mais das vezes sequer davam pela sua chegada. Ele andava por aí como um espírito, para lá e para cá nos corredores, emburrado, calado, emerdado – até que, na mesa do almoço, do puro arbítrio de uma criança carente, saía-se com um pedaço de informação incompreensível aos comensais. Estes se entreolhavam, visivelmente receosos de abrir a boca; trocavam expressões faciais significando a própria ignorância, a própria ignorância coletiva, feliz enquanto ignorante, ignorante de tudo, até de si mesma, de mãos dadas, cantando,
Lalalalala,
Lalalalala,
O FDSSADF está em casa,
Que surpresa!
Esperemos que a partir
De agora
Coma todo o seu feijão
E fique bem quietinho à mesa!
Lalalalala...
Relembrando e relatando assim, a si mesmo e em voz alta, o seu passado, e além disso acalentando-se com aquela canção familiar dentre as canções familiares, FDSSADF adormeceu. Acordou. Adormeceu. Acordou. Adormeceu. Acordou definitivamente, ou seja, para permanecer assim por um período de tempo que se prolongaria enquanto lhe restassem forças, com o soar do telefone. O estranho aqui é que, como o leitor atento há de lembrar, o telefone se quebrara ao cair. Era impossível que estivesse tocando agora. Mas desatento como era, FDSSADF não se deu conta dessa impossibilidade. Acorreu, portanto, ao telefone outra vez. Fez menção de avançar com a boca, intuindo agora, mais depressa do que o fizera da última vez, a contenção involuntária a que estavam submetidos os seus braços; mas, ao chegar a um palmo do cabo do receptor, algo semelhante a um instinto fez com que desistisse da empresa, por repulsa. Estava começando a aprender?
Sentia-se completamente desperto, o intelecto apurado ao máximo. Viu uma fresta através da qual entrava no quarto um pouco de luz. O provável é que estivesse lá desde sempre, aquela fresta, e que ele não estivesse preso, como imaginara, mas sim em repouso mais ou menos forçado. Contudo, como não conseguisse imaginar o motivo por que lhe imporiam repousar, FDSSADF abandonou essa hipótese e se aproximou da porta. Sim, era uma fresta, incontestavelmente uma fresta. ISSO ERA CERTO. E então, arriscar-se-ia para fora do quarto, ou permaneceria lá, conforme esperavam de si?
Comportar-se devidamente sempre fora uma grande questão para FDSSADF.
Súbito ouviu passos. Atirou-se num ímpeto sobre a cama, cobriu-se o melhor que pôde (valendo-se para tanto exclusivamente dos pés) e fechou os olhos. A sua respiração, por alguns segundos, não lhe permitia escutar claramente; FDSSADF tinha o fôlego muito curto, e a realizar qualquer movimento, por mais calculado, já se punha a ofegar. Depois, a audição mais afinada, suspendeu a respiração por alguns momentos. Mas nem assim ouviu passos. Concentrou-se ainda mais. Mas nem assim ouviu passos. Concentrou-se ainda mais. Mas nem assim ouviu passos. Etc. Até que, interrompendo a harmonia angustiante dessa cadeia, FDSSADF soltou o ar, sorveu-o a tragos largos, uma, duas vezes.
Curiosamente, agora que respirava em liberdade, FDSSADF voltou a ouvir passos. Adivinhou serem o resultado de pés descalços no corredor frio de azulejos. Ecoavam num barulho mole e quase líquido, como pés de pato atravessando um pântano, um coração batendo na lama... Suspendeu novamente a respiração, tencionando verificar se não era o seu próprio palpitar que o assustava. Em vão: não conseguia distinguir o próprio palpitar do barulho produzido pelo pêndulo do relógio, e tampouco do outro, mais distante, que lhe sugeria a imagem de um bezerro atravessando uma rodovia à noite. Ora, mas ele não morava perto de rodovia nenhuma, e nem havia relógios no quarto!
Lembrar-se disso lhe espantou: em resposta, tornou a respirar largamente, para ver se...
Os passos retomaram mais fortes, mais próximos.
Parou de respirar; os passos cessaram.
Respirou; os passos recomeçaram, e na mesma posição estimada em que haviam parado.
Parou de respirar.
Agora eles estavam próximos demais, digamos a um metro da porta de FDSSADF, que já vê, talvez com o olho da imaginação, uma sombra se aproximar da fresta deixada pela porta. Cumpria mantê-los afastados, cumpria não lhes permitir a entrada, evitar a cena desagradável que se desenrolaria caso, por exemplo, fossem os passos de alguém que lhe viesse fazer uma visita para desejar novamente feliz aniversário ao pé do ouvido. Esse ouvido tão velho, dezoito anos de escuta. Com os pés, FDSSADF não se importava: sempre foram surdos, de todo modo, e não faziam senão permanecer lá embaixo, passivamente sendo pisados, e por si mesmos; estúpidos e surdos. Daria de bom grado os pés de presente a quem os quisesse, caso o pedissem com educação. Mas os ouvidos era o que eles queriam; tomar-lhe os ouvidos com frases feitas, recomendações, perguntas por responder que já foram mil vezes respondidas, imprecações e promessas de sobremesa se ele fosse um bom garoto... E se, para preservar intactos os seus ouvidos, fazia-se imperioso que não respirasse...
Se a coisa era assim, que assim fosse. FDSSADF resolveu-se a parar de respirar. Para sempre.
Para sempre – mas já se tornava azul, e agora roxo, e agora violeta! E agora vermelho! E agora, sentindo os pulmões a ponto de explodir, quase preto!
Soltou a baforada de todo o ar que armazenara. Não o armazenara por mais de meio minuto, por mais dramática que tenha sido a narração da cena; mas que sufoco!
Os passos não voltaram a acontecer. No silêncio do quarto, aquela foi a noite em que FDSSADF compôs mentalmente um manifesto intitulado Manifesto Manifesto, que viria a ser, segundo o seu plano, mundialmente aclamado como o documento contra o prolongamento indefinido do posmodernismo de eficiência menos negligenciável. Mas um monstro terrível acabou por devorar FDSSADF antes que qualquer palavra tivesse a chance de se deitar ao papel.
A humanidade, a parcela da humanidade que se importa, pranteia-o com raro entusiasmo.
|
Terça-feira, Junho 24, 2008
[comédia de pé]
CLXIII. (1)
Som. Som. Parece-me que posso começar. Faz sol lá fora, se não me engano, se não é noite. Ah, eu não tenho nada a dizer, mas não vou desistir. Não já. O começo é o mais difícil, é o que dizem? Outro dia, quando eu era pequeno, um macaco me puxou pela mão e... Não, não, nada disso. Som. Começo a me irritar. (Isso está ligado?) Sobretudo não quero soar existencialista. Irritado, então, desligo o microfone (não sei escrever com lápis e canetas, muito menos ao mesmo tempo, canetinhas vá lá, com carvão faço miséria) e desço as escadas até o subterrâneo, onde me espera a minha família, o que restou dela. Verifico que estão todos bem comportados, sentados nas suas cadeiras, esperando. O quê? Eu não sei. O fim da guerra, talvez. Um dois três som. Talvez o sorveteiro, ou o leiteiro, ou o músico, ou o míssil, ou o presidente. Ultimamente tem sido difícil penetrar no território secreto dos desejos da minha família. Como nada tenho a lhes oferecer que eles já não tenham (o que é deles é meu e vice-versa), volto ao palco. Sobre uma plataforma, uma gaiola. Entro nela. Eu mesmo não tenho desejos, aqui estou. Mas tampouco tenho o que dizer. Tenho o que dizer? Não consigo pensar em nada que vocês já não saibam. (Merda de microfone.) Outro dia, é claro, todos já tivemos quinze anos, um homem me puxou pela mão para dentro de um beco escuro e me ofereceu uísque. Eu não lembro se aceitei ou recusei, mas nos tornamos bons amigos e ele freqüenta a minha casa desde então, isso é o que importa, embora sob disfarces. O mais comum sendo o de um bode, que ele imita perfeitamente bem. Um dois, um dois. Tão perfeitamente que desconfio. Não sei por que ele usa os disfarces, a minha família é tolerante com relação a assuntos assim. Pergunto-me assim como. Só me resta pensar que lhe agrada se fantasiar de bode.
(Garibaldi, vá chamar aquela Jaqueline, a do chapéu!)
*
Foi-me imposto colher os vinte e dois rubis do velho relógio de bolso do meu avô, que os espalhara pela cidade. Como ou porque ele o fizera eu não saberia dizer, na verdade não me importava. Na minha vida, muita coisa me é imposta, se eu fosse parar para perguntar nunca teria passado nem da segunda série. O meu avô morreu na guerra. Daí, eu pensava, a minha mãe, uma delas, vir me dizer, É dever de honra, e o meu pai, É dever de honra, e assim as minhas irmãs, irmãos, tios, tias, sobrinhos, sobrinhas, esposas, maridos, cachorros, cadelas, gatos, papagaios e gnomos de jardim. Ah, que somos numerosos nessa casa. E liberais, excessivamente liberais. As minhas avós, no entanto, pareciam não dar a mínima. Se eu encontrasse os rubis, diziam, tanto melhor. Se não, paciência. Isso me pareceu curioso. Na verdade, isso me colocou numa situação difícil, qual seja, comecei a desconfiar que a minha família desejava obter os rubis por alguma razão muito diversa daquela que alegava. Por outro lado, era possível, por que não, que as minhas avós fossem espiãs. Como tenho quase tantas avós quanto demais membros da família, no entanto, resolvi-me por não comunicar as minhas suspeitas a nenhum dos lados, não antes de estar seguro de qual fosse o meu lado. Porque, caso fossem espiãs e se inteirassem do que eu andava pensando, as minhas avós seriam logicamente comunistas, eu pensava, e me comeriam. E, inversamente, ou seja, caso não fossem espiãs, as minhas avós se rebelariam provavelmente contra a família, desejosas de atender aos mínimos anseios do netinho querido, e provavelmente acabariam por comê-la todinha. Isso tudo, cumpre notar, era estritamente lógico para mim. Eu tinha cinco anos. Permaneci calado e me lancei à busca. Vesti-me com um balde à cabeça e umas botinas de chumbo revestidas internamente com couro de cabra (armadura contra os mísseis inimigos), armei-me de um pouco de alvejante numa pistola plástica (contra a imundície do inimigo) e saí à rua, pronto para a batalha. Mas não sabia por onde começar. Verdade seja dita, ignorava o que era um avô, pois o meu único avô morrera décadas antes do meu nascimento. O que tornava a minha busca abstrata demais para que eu me sentisse motivado. Não o bastante, não o bastante. Ignorava também os rubis e o significado do verbo colher, a não ser quando relativo a plantações e ao dízimo. E quanto às plantações, se sabia exatamente o que eram, não chegava a perceber para que serviam. Portanto, uma vez ao ar livre, vestido para a batalha como descrito, voltei ao meu quarto e lá permaneci trancado por um mês inteiro – ao cabo do qual, eu julgava, a minha família toda, avós incluídas, já teria se esquecido da minha existência e me deixaria em paz. Ah, a lógica infantil!
*
Eis-me aqui, em frente. Em frente de vocês. Desta multidão, desta selva de pontos coloridos que são vocês usando chapéus. O microfone não vai muito bem, eu penso, talvez seja um truque. Vocês foram contratados? Por quem? Por quanto, por quê, por favor? Em frente, portanto, com o show. Quem não gosta de piadas queira se retirar de antemão, porque, por que mesmo, eu me esqueci, mas julgo que farei piadas, se se classificam como piadas e não (antes) anedotas tergiversadas engraçadas em algum grau, espero, relativas aos tempos em que vivemos. Os eventos mais engraçados acontecem, podem me procurar, no olho do furacão lá estou eu (divertido, há, há), rodopiando junto às vacas, muito divertido. E depois, com o meu saber, subo aqui, conto tudo para vocês. Obstáculos no caminho, sempre os há, o importante é não reparar. Contudo não contava com os chapéus. Queiram retirá-los, por favor, é falta de educação, não é, ou os tempos mudaram tanto assim, não é, não creio. Gostem ou não gostem do que digo, do que faço, que é, num certo sentido, o que digo, ou a expressão menor disso, seja lá o que for, um rol de pobres barbudos não pôde descobrir. Em frente, portanto. Uma vez eu tenha visto estes lindos cabelinhos castanhos. Ora, são castanhos, os seus cabelos, não são? Adivinho. Os olhos castanho-esverdeados não me escapam, eu sou astuto, estou à caça. Não julguem que os mimo, não é exatamente isso. Diria antes outra coisa. Não saberia dizer o quê. Bem, contarei então a anedota, ou a piada, como queiram, do papagaio que, tendo entrado por acidente na jaula do gorila, fez amizade com este. Ao término da qual espero vê-los todos sem chapéu, bem entendido? É uma colher de chá, como se diz. O caso é que um complementava o outro, a julgar pelos padrões humanos, vocês me entendem?, ou seja, o papagaio tinha aquilo que o gorila não tinha, e o gorila, aquilo que o papagaio não tinha. A saber, a capacidade verbal (conquanto limitadíssima) deste era o que faltava, que coisa estúpida, àquele, que por sua vez entretinha uma aparência humanóide. Ostentavam-se ambos, cada um com o seu traço diferencial, cada traço diferencial com as suas peculiaridades, cada peculiaridade em nada parecida com tantas outras, de outros animais e coisas, ostentavam-se, dizia, aos visitantes do circo, pois que se tratava de um circo. Isso a grosso modo. Acontece que, um belo dia, um dia talvez não tão belo, mas como todos os outros, exceto pelo bom humor, geral, sim, mas em especial de um garotinho que contemplava a jaula do papagaio e do gorila (pois se convencionara, através das vias burocráticas próprias e da influência exercida sobre as pessoas certas, nem mais, nem menos, que a jaula passaria a ser dos dois, atendendo aos interesses de determinado sujeito cujos interesses e personalidade ninguém parecia compreender, a não ser o seu amigo, aquele mesmo que se encarregara de exercer a dita influência, e mesmo assim de uma compreensão muito restrita), ai, aonde fui me meter, aonde fui me meter, não lembro onde estava. Ah, sim, o bom humor do garotinho em especial. Vocês já terminaram de tirar os chapéus? Parece-me ver alguns, por favor, por favor. O bom humor do garotinho tinha razões profundamente humanísticas, embora inconscientes, fato de que ele estava, em que pese a inconsciência, mais ou menos ciente, mais ou menos porque sim. Pode-se falar em razões, em tal caso? Mas na verdade eu não estou ciente de nada disso. Perdoem este narrador! Vocês não vão tirar os malditos chapéus, não é. Bem vejo. Então, abrindo um sorriso do tamanho da abóbada celeste, o garotinho... Olhou e... Abrindo um guarda-chuva maior que o mundo ele... Não me animo a continuar.
*
(Jaqueline sobe ao palco. Bonita, loira, pernas longas, vestido curtíssimo. Retira o chapéu da cabeça. Retira do chapéu algumas ferramentas. Puxa o fio do microfone aqui e ali, à minha revelia. Finalmente decide-se a cortá-lo. Desce do palco. Sobe outra vez, sem motivo aparente. Acena para o público. Retira o chapéu da cabeça. Retira do chapéu algumas ferramentas. Estende sobre o microfone uma toalha de piquenique quadriculada, puxa-a para cima pelas bordas, num movimento rápido, levanta e roda o embrulho, roda-o a toda, e lança o microfone à platéia, que delira. Garibaldi aparece. Instruo-o no sentido de me trazer outro microfone. Ele me informa que não há outros microfones. Instruo-o então a retirar Jaqueline do palco. Ele me informa que não há Jaqueline. Apalpa-me aqui e ali, à minha revelia, principalmente na cabeça. Pergunta-me se está tudo bem. Eu aceno confusamente com as mãos e digo que me deixe continuar a performance. Ele se retira.)
*
Bem, o mês passou. Saí do meu quarto, certo de que não me reconheceriam. E assim foi. Mal me viu, a minha mãe, uma das minhas mães começou a gritar. Eu ainda carregava o balde na cabeça, a pistola de alvejante nas mãos. Esguichei o quanto pude contra o vestido de veludo daquela mãe, sentindo prazer nisso, por que o negaria. Parece-me que, se quero lhes agradar, não me é permitido negar coisa alguma. Vocês sugam a gente até o bagaço, meus queridos! E mesmo assim, mesmo assim continuo. O palco é um prazer. Procedi no meu plano. Sim, urdira um plano no mês de reclusão, para passar o tempo e quem sabe me vingar um pouquinho da minha família, da negligência que laços afetivos tão emaranhados despejara sobre mim desde o momento que nasci. O meu rancor vem do berço, portanto. Tanto pior. Fui encontrar a minha segunda mãe no banheiro, com um dos meus tios. Ignoro se por parte de pai ou de mãe, e de todo modo não saberia de qual deles. Chamo-a segunda mãe por comodidade. A bem dizer, era mais nova que a outra, a primeira, segundo a minha convenção, e mais viçosa também. Carregava seios enormes por baixo do vestido. Era loira, pernas longas, vestido curtíssimo. Entretanto agora estava nua. Espirrei o alvejante bem onde mais lhe doía. Ela gritou, esperneou, jogou o meu tio para longe. Estranho as coisas que a gente lembra, o meu tio estava de roupas, traje social completo, dir-se-ia que acabara de chegar de ou ia a uma festa, e cheirava a brilhantina. Aproveitei a oportunidade para esguichar um jato certeiro no olho dele. Saí correndo, feliz! Nada me segurava. Entrei no quarto das orgias, onde consegui dar conta de mais da metade da minha tarefa de uma vez só. O balde balançando, batendo contra a minha cara, os meus parentes amontoados, meio gritando, meio gemendo... Em todo caso era comigo. Eu não enxergava, mas conhecia aquele apartamento como ninguém. Bem, desci correndo dois patamares da escada em espiral e me enfiei num canto, o canto onde eu sempre me enfio quando quero estar escondido, ao lado da lareira, quase dentro, mas nem tanto. Considerei que ainda havia umas boas trinta pessoas a punir, e que, o que era uma pena, o galão da minha pistola já estava quase vazio. Se ainda quisesse levar a cabo o meu plano, cumpriria atravessar a cozinha, onde provavelmente encontraria a minha primeira mãe, e, cegando-lhe (temporariamente?), arrancar da despensa um dos frascos de produtos de limpeza. Ah, eu não fazia questão que fosse alvejante, não, qualquer coisa serviria, contanto que bem química. Eu era capaz de raciocínios assim aos cinco anos, vejam só. É uma pena que não tenha me conservado em forma. Hoje em dia, se pratico alguma maldade, vejo-me a lacrimejar, as minhas pernas fraquejam, caio de joelhos! Velhos hábitos de missa. Bem, numa palavra, para não cansá-los mais do que o necessário, digo que levei o meu plano a cabo. Mas com uma ressalva. Não me atrevi a entrar no cômodo das avós. Ainda não estava certo de que não eram espiãs, de que não me comeriam assim que me vissem de pistola plástica em punho. No processo de juntar algumas mudas de roupa, quase fui apanhado pelo cachorro de estimação da casa. Pois tínhamos um cachorro, dentre outros, e ele era de estimação, e habitava a nossa casa. Ao vê-lo se aproximar, lancei mão do meu canivete (eu era um lobinho). Matei-o. Em seguida me meti porta afora, mundo adentro, para não sei que aventuras!
*
Bem, o papagaio, o gorila, o menino a observá-los. Paro um pouco, para descansar. Esta jaula está ficando pequena para mim, não me importam mais os seus chapéus. Podia jurar que havia Jaqueline! Ilusões, ilusões. Sentado a um canto, bebo um gole d’água, ajeito a minha gabardina. Observo a platéia, que conversa, come a sua pipoca, chacoalha um pouco os chapéus para frente e para trás. Do fundo do auditório, da sala de luz, Garibaldi gesticula. Não consigo interpretá-lo à minha satisfação. O meu estômago dói. Não tanto dói como gira. Passo em revisão mental a piada do papagaio e do menino, tencionando retomá-la assim que me for dado (pelo meu corpo, pelo meu espírito) retornar ao microfone. É uma muito boa, garanto. Mas esqueci o final. Começo a escutar ruídos estranhos, ruídos estranhos que compõem algo, uma frase, uma frase sai quase em voz humana agora, e me diz, O que você está fazendo, idiota. É o meu ponto, de cuja existência me havia esquecido totalmente. Olho mais uma vez para Garibaldi. Ele me acena com o que agora interpreto como impaciência. Ora, Garibaldi. Irrito-me. Ao me levantar da cadeira, lentamente, em câmera lenta mesmo, os holofotes vibrando o ar que me delineia, eu em contorno, a passos lentos, a passos lentos na direção do microfone (um metro). Balanço a cabeça (a máscara de cabelos revoltos chacoalhando, só um vulto contra os holofotes) e tomo os últimos passos antes de me prostrar ereto com toda a segurança que a minha mãe me passou durante uma infância feliz inteira. Olha, Garibaldi, está tudo bem!
Que masturbação. Continuo sentado, é óbvio, na mesma cadeira, ao fundo da jaula. Ilusões, ilusões. Enredo-me nas cortinas roxas, para me esconder melhor. Garibaldi continua gritando ao meu ouvido. Se pensa que sabe, penso, não nestes termos, mas quase, por que não vem aqui, fazer o meu trabalho, contar a minha piada? Aceno afirmativamente com a cabeça. Sim, sim, eu vou obedecer. Vou tomar as suas ordens, contra-regras, sopre no ponto, sem você eu não sou nada. Não um comediante, não um contador de histórias, não um astro do rock. Aceno afirmativamente, com mais entusiasmo agora. Quero me convencer. Levante-se, ele diz. Eu aceno afirmativamente com violência. Levante-se!, ele grita. Já vou, já vou!, aceno com a cabeça. Depois silêncio. Como uma criança teimosa, então, justo no timing (o importante é o timing), levanto-me e, bem, caio novamente sentado. Como uma criança teimosa, eu disse. Se houvesse Jaqueline, ah, que benção! Chamá-la-ia para me substituir. Uma ou duas peças de roupas a menos bastariam, e uma canção talvez, reboladinha, não pediria muito. O resto ficaria para mais tarde, no hotel. Ela seria loira, pernas compridas, espirituosa... Desnecessário ser espirituosa. Loira bastaria. Pernas compridas, penso melhor, são igualmente desnecessárias, se não francamente desaconselháveis. Quando eu quero uma mulher, quero poder alcançá-la. Daríamos um belo par cômico, no entanto, se ela tivesse pernas compridas e se encimasse num salto, um vestido vermelho, Jessica Rabbit para o meu Roger, e o vilão, o vilão Garibaldi. Eu saltaria como um coelho, é claro. Chegaria num átimo ao microfone. Com a desenvoltura de um protagonista, desenvolveria a contento a piada no microfone, no microfone vomitaria a piada sobre eles. Tantas piadas, tanto tempo perdido, meu Deus, quanta – e o bebê, o bebê que fumava charutos, qual é mesmo o seu nome? Preciso assistir esse filme outra vez. Hora de voltar. É agora ou nunca. Ajoelho-me e faço (anomalamente) o sinal da cruz.
Começo, Não que eu ache que não há um Deus, sabe?
Silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Agora!
Vocês, vocês acreditam? Silêncio. Silêncio. Agora!
Pois eu não acredito até que... O negócio é o da fé. A teologia é interessante, sim, pois não, a primeira coisa que eu quis estudar, quando era pequeno, foi a teologia. Perguntavam-me, eu dizia, Teólogo. Há! (Risos.) Mas a vida passa, a gente fecha os olhos e o que era vontade de fazer teologia, vejam só, eu estou aqui, vocês estão aí, eu faço o sinal da cruz (eu faço o sinal da cruz) como quem pede a Buda que lhe ilumine o caminho até a mesquita mais próxima (mais risos), é a coisa do sincretismo, não é? O negócio é que, para fazer teologia, seria antes necessário, me informaram, os meus pais me informaram, ter fé, e eu não tinha fé (o dedo se enfiando no meu nariz), tinha, garotinho? Então para que ser padre. Não quero ser padre, eu retrucava, limpando a meleca com a língua (mais risos), eu quero estudar teologia. Aí é que era. Era melhor não dizer isso, porque... Bem, o bicho pegava. O padre ficava vermelho, inchava, dizia coisas como, Menino levado, merece apanhar, venha comigo aqui atrás que eu vou dar uns tapas nessa sua bundinha, e eu dizia, Não, não seu padre, eu acredito! Eu acredito! Por nada. Ele abaixava a minha calça e...
*
(Na platéia um burburinho nervoso. Eu olho para o fundo, para Garibaldi outra vez. Ele sorri com todos os dentes. Poderia jurar que tem uns trezentos deles nessas horas que eu consigo entreter todo mundo com uma das minhas histórias inventadas de infância. As reticências suspensas, o burburinho nervoso, eu olhando – que piada – para o meu passado longínquo. Trevas, a única luz desmaiada me sulcando a máscara. Conjeturo no timing. Sinto a minha deixa – agora!
Abandono o microfone e retorno ao meu canto.
Risos.)
*
|
CLXIII. (2)
E o que eu podia fazer? Assim que saí de casa, larguei o balde e a pistola. Coloquei-os dentro de um buraco na encruzilhada. Era meia-noite, os coiotes uivavam, fazia escuro. Eu tinha cinco anos. Depois branco. A próxima coisa que eu lembro é o circo, eu dentro do circo (parece-me que era um circo), fazendo pequenos consertos, trabalhos braçais, alimentando os elefantes, e de tempos em tempos, dependendo do humor do meu patrão, um homem alternadamente mau – não lembro exatamente a freqüência – dia sim, dia não, talvez, ou semanalmente – vestindo-me de macaco, um gorila, se bem lembro, e entrando na jaula. O objetivo era me fazer falar, que o gorila, percebam, falasse. Era um truque barato, eu morria de vergonha. Por aí eu devia ter uns quinze anos. Uma senhora me jogou uma maçã, foi o que marcou esse período. De resto, igualmente branco. A maçã provavelmente continuou na memória porque eu odiava maçãs, tendo experimentado em criança uma bichada e depois sido repreendido severamente por cada um dos membros da minha família. Falar em traumas é falar deles. Depois, a próxima coisa de que me lembro é – mas ah, eu já ia deixar para lá a parte mais importante da minha história, a da mão que me puxou para o beco!
Eu ainda estava fantasiado. Quinze anos, veja-se, não é uma idade apropriada para o trabalho. Eu terminava o expediente exausto, retornava direto para o meu quarto, dormia até que me chamassem para dar início ao expediente do dia seguinte. Isso acontecia cedo. Creio que, em média, não dormia mais que cinco horas. Muitas vezes fui chicoteado por não conseguir me levantar, muitas vezes chicoteei de volta. Odiava essa vida? É claro, é claro. Mas não a abandonava, porque, nunca tendo conhecido outra, senão a ainda mais execrável da minha casa, julgava-a boa. O meu ódio, quando se me apresentava quase como tal, isso é, quase na cor devida (rosa?), quase na forma devida (touro?), eu o interpretava como algo bom, uma força que me ajudaria a continuar no dia seguinte. Como resultado disso, freqüentemente quebrava garrafas vazias e dava sumiço a animais menores da companhia. Freqüentemente quebrava garrafas vazias na cabeça de animais menores da companhia. Assim morreu o nosso único tamanduá-bandeira. E foi para o bem, acredito, já que a gaiola dele fedia e não atraía ninguém, funcionando até, creio, como uma espécie de repelente para as pessoas de espírito fino que vinham ver as atrações aos domingos.
Voltava para casa, portanto, fantasiado de gorila, quando vi a mão. Como descrever a cena? Como fazê-lo de modo chocante, ou pelo menos esquisito, como me ficou gravada na memória? Ah, lembro-me agora dos detalhes. Estava escuro. Muito escuro. E, no céu, passavam uns três aviões. Eu ia seguir reto até o meu trailer, entrar, tirar as roupas, dentro de quinze minutos estaria dormindo para além de qualquer possibilidade de acordar, não digo para sempre, mas por umas boas duas horas, é essa a quantidade de tempo que eu consigo dormir imperturbável. Depois os pesadelos me atacam, viro uma vítima fácil. A mão surgiu do escuro, como que saída da construção de dois andares. O prédio era um de tijolos à vista, umas janelas que pareciam olhos de alienígena. Estanquei diante daquela mão. Devo ter feito boa figura a quem observasse, um gorila parado no meio da noite, observando uma mão quase autônoma – uma mão que, contribuindo à estranheza, fechara todos os seus dedos, conservando em riste, mas a palma voltada para cima, o indicador. Bela descrição, muito acurada. Não obstante, o indicador era móvel, pois se mexeu. Foi um movimento sinuoso, ondulante, para cima, para baixo, como uma cobra, e eu, digamos, Eva, a mãe de todos nós, rigorosamente tonta, caí outra vez, de novo!, seguindo-o, o indicador. Desculpem-me se me meto a falar da Bíblia, sai-me (quase) sem querer. Entrei no beco. O homem afastava-se e, enquanto eu o seguia, avaliava-o. Um mendigo, provavelmente, pensei comigo mesmo, ou um desses integrantes excêntricos da nova classe-média. Ou então, a julgar pelo seu modo de andar, um pirata, pois era coxo. Ou então um macaco, eles têm essa maneira, se adestrados, de chamar os outros e sair correndo. Ou então um urso, dado o seu tamanho, ou o nosso adestrador mesmo, cujos cabelos, como que temerosos do gigantismo que atacava todo o resto, declararam-se prematuramente mortos e caíram ao chão certo dia, todos mais ou menos juntos, em pleno andamento do espetáculo...
Chegando ao fundo do beco, o homem se virou. Não o encarei de imediato, pois tinha medo. O adestrador era um homem muito nervoso, capaz de dar sovas a quem não merece só para aplacar o seu ânimo. E quase todas as outras hipóteses me assustavam igualmente. Pois, se fosse um urso, na certa arrancaria a minha cabeça. Se pirata, também. Um mendigo, sabe-se lá, eles são capazes de tudo... E um homem da classe-média, então, enfiado num beco escuro a essa hora da noite... Era de arrepiar. A exceção seria o macaco. Se fosse um macaco, o pior que tentaria seria um ritual de acasalamento, coisa de que, com um pouco de graça, não digo elegância, seria impossível, mas graça, conseguiria me esquivar. Alegaria um compromisso urgente, ou o cansaço mesmo, uma dor de cabeça depois de um dia de trabalho... Nada menos insuspeito.
Olhei para cima, esperando que fosse um macaco.
*
(Pausa dramática. Silêncio. Na platéia, alguém espirra.)
*
A visão daquele rosto! Ofereceu-me um uísque. Não lembro se aceitei ou recusei, como já referido. A visão daquele rosto! Algo nele brilhava. Ou antes não brilhava, mas tragava a visão, a capacidade de visão do sujeito que o observava (eu)! Dir-se-ia que os seus olhos, poços profundos, confundindo-se com as olheiras, confundindo-se mesmo com todo o resto da cabeça, alimentava-se de subjetivos, devorava-os no fim impossível de construir um outro, coletivo... Essa foi, pelo menos, a minha impressão. Enquanto a boca, voraz ela também, se sacudia para todos os lados, babando, respingando, ofegando, assustando, perguntando, respondendo, sacudindo, falhando, farfalhando, irradiando, obliterando, escondendo, mantendo, revelando, deixando cair, recuperando, olhando, provando, não se importando, depois de muito tentar, desistindo, continuando, retomando, avaliando e mastigando...
Ah, a visão daquele rosto!
*
*
A minha próxima memória, como eu dizia – agora. Não sei quantos anos tenho. Garibaldi se zanga, grita, manda recados através do menino – quer que eu termine, que eu tire o chapéu, que eu saia com uma boa gargalhada, que... Não sei gargalhar, pergunto-me se ele quer dizer que o público deve gargalhar, é a parte deles. A minha, nesse traje de gorila, pelo que me cabe, está cumprida por hoje. A título de epílogo. A minha família aceitou o Ernesto (ele se chamava Ernesto), que se juntou a nós relutante, de início, depois plenamente bêbado, e os seus charutos criaram problemas, cinzas por todo canto, mas isso, isso já está quase resolvido, tudo ao seu tempo. Às vezes insisto em que abandone o disfarce de bode, sem sucesso. Voltei ao seio da família, aliás, um dia, um dia em que, não sei se devo me estender nisso, Garibaldi já empunha o chicote, tenho medo. Voltei ao seio da família um dia em que não tive mais vontade nenhuma de encontrar Ernesto sozinho. Ele passara a freqüentar o meu trailer e, bêbado, agredia-me por nada, xingava alto, acordava os vizinhos todos, era um horror, mas fazer o quê, as armas, elas estavam com ele e, quanto a mim, pelo que eu posso, pelo que eu sei, sou só um gorila falante, bananas à parte, só posso falar, só sei falar, mas tudo ao seu tempo, às vezes calo também.
*
(Jaqueline aparece. Retira o chapéu da cabeça. Retira do chapéu um relógio de vinte e dois rubis. Fazendo menção de me retirar, volto-me e, bem, tropeço e caio. Jaqueline se dirige à platéia com gestos largos, entreabre os lábios e diz, Vinte e dois, vinte e dois, vinte e dois, vinte e dois, vinte e dois, vinte e dois, vinte e dois. Faço menção de me levantar, mas, bem, tropeço e caio. Jaqueline retira do chapéu um maço grosso de notas de cem. Faço menção de me rastejar, mas, bem. Cai a cortina.)
|
Terça-feira, Maio 27, 2008
[O Massacre Na Casa Do Xerife]
CLXII.
O velho voltou. Atravessa lentamente a soleira, as botas de aço rangendo contra as tábuas soltas do meu chão, o chapéu tapando a vista... Como sempre. O velho não muda, é o mesmo velho de sempre. Quem mudou, no entretempo, fui eu. Entrincheirado entre um sofá e outro da sala de estar, controle remoto à mão, aperto os botões certos na ordem certa para acender os holofotes bem na cara dele. Isso o atordoa. Então eu busco a minha faca e... Bem, percebo que esqueci a faca sobre algum móvel da cozinha. Aterrorizado, eu apago as luzes, me xingo mentalmente, jurando me punir outra vez, e outra, quantas vezes forem necessárias, e com uma punição ainda mais abjeta que os encargos que o velho me impõe.
*
Anos atrás, caminhando no deserto... Veja bem, eu gosto de caminhar no deserto. É um hobby. Foi caminhando no deserto, anos atrás, que travei o meu primeiro contato com o velho. Eu tomava um caldo de cana, porque, veja bem, eu gosto de tomar caldo de cana. E, no deserto, não há outra coisa senão barraquinhas de caldo de cana. Certo, preferiria um refrigerante, um vinho, uma cerveja mesmo, bem gelada, bem gelada... Mas as cervejas me desidratariam. As barraquinhas de caldo de cana as vendiam, é claro, todos vendem cervejas. E refrigerantes também, seria muito fácil comprar um refrigerante, não sendo nem necessário para tanto uma barraquinha, uma vez que os refrigerantes, hoje em dia, surgem de lugares tão diversos quanto a Alemanha o é da República Tcheca (muito diferente). Se não comprei refrigerantes, ou simplesmente não os colhi, pois brotavam das rachaduras da seca (era uma espécie de sertão, esse deserto de licença poética), embora os preferisse ao caldo de cana, foi porque julguei incerta a sua procedência. Quem sabe as doenças que espreitam do subsolo? Quem sabe com quantos goles, depois de que refrescâncias alcançaria a morte? Bebia caldo de cana, portanto, quando encontrei o velho.
*
Antes estivesse em outro lugar; ou, então, naquele lugar mesmo, mas outra hora... Tantos hobbies saudáveis, tantos aviões, hovercrafts, trenós etc.!
No começo, admito ter pensado que o velho me viria, pelo menos, a ser útil, fosse como amigo, fosse como protetor.
Me enganei: ele era todo problema.
Rá!
*
Encontrei-o à beira de um oásis. Ele ostentava dignidade. Apesar de muito velho, muito magro, visivelmente abatido pela fome e pelo cansaço, via-se que se tratava de um velho orgulhoso. Ele espetava os dentes com a haste de uma planta. Temi que fosse venenosa; imbecil, preocupado, solícito como sempre, cavei um buraco na areia, corri até o velho, tirei a planta da sua mão e, ato contínuo, saí à procura do buraco que cavara, com a intenção de enterrá-la além de qualquer possibilidade de recuperação. Mas, no deserto, os buracos se tapam com a facilidade de um corte na mucosa labial... Não o encontrei. Voltei ao velho, me desculpei por ter me intrometido com tão pouco sucesso na sua perigosa empresa, que ele poderia retomar agora, se assim desejasse, visto estivesse além da minha capacidade privá-lo satisfatoriamente desse perigo. Sem dizer palavra, ele remexeu por baixo da camisa e tirou do coldre uma bela Magnum 46, com a qual me ameaçou. Disse que ia me meter um número razoável de balas bem no meio da cara. (SIC)
De algum modo, terminamos a noite embriagados.
*
O corpo policial da cidade em que estamos hospedados colocou cartazes com a sua foto em todos os pontos vitais: banco, prefeitura, padaria etc. Ao passear pela manhã, rasgando os pulmões com o ar quente e seco, encontramos, muito à vontade nos seus sapatos, o xerife da cidade. Ele nos cumprimenta jovialmente, desculpa-se pelos cartazes, mera formalidade; convida-nos a visitá-lo na sua casa hoje à noite, quando a sua esposa preparará a sua especialidade.
O velho pergunta ao xerife que especialidade é essa (SIC).
O xerife hesita: “Hm...” E depois: “Patos. Patos... assados... ao molho pardo.”
De qualquer modo, aceitamos o convite e nos retiramos novamente para o bar.
Entre cartas e uísque, expresso ao velho o meu medo de estarmos sendo atraídos para uma emboscada.
Ele acena negativamente com a cabeça e ri feito uma hiena.
Retirando um palm do bolso interno do colete enquanto, com a outra mão, tira novamente a pistola do coldre para usá-la como canetinha, ele diz: “Nós não queremos decepcionar o xerife, queremos?”
A noite fica conhecida como “O Massacre Na Casa Do Xerife”.
*
Mas os tempos mudaram: se um homem, nos tempos do velho, podia ser livre como ele foi, e andar a esmo pelo mundo procurando novos alvos para as suas balas, novos bancos para assaltar e mulheres para estuprar, o mesmo não pode ser dito sobre mim, nos novos tempos. Quando chega a hora de voltar da minha caminhada no deserto – muito antes, aliás, do que eu desejaria – expresso-lhe o meu desejo de que venha comigo passar uma temporada na plataforma de petróleo onde moro. Depois de muito insistir, mostrar-lhe panfletos de propaganda estatal (a plataforma luzindo sob o sol, os rostos felizes e saudáveis luzindo sob o sol, o petróleo aos jorros luzindo sob o sol) e cantar-lhe algumas das minhas canções institucionais favoritas, convenço-o, mas sob uma condição: eu devo voltar para cá pelo menos uma vez por semana, a partir de quando ele mesmo estiver de volta, trazendo-lhe um ou outro presentinho, mimos, entende-se, qualquer coisa de insignificante mesmo. Souvenirs, ele diz, enfático – o que define um homem da sua idade, senão os souvenirs? (SIC)
Tudo bem, aceito tudo nesses termos. E depois de alguns meses de visita silenciosa, o velho acha por bem retornar à sua cidadezinha.
É quando a minha vida se torna um inferno. Depois do trabalho, à noite, todos os dias, nado através do pacífico até a costa noroeste africana, onde compro os malditos souvenirs de nativos enfeitados. Chego em casa bem na hora de voltar ao trabalho. A plataforma flutua de modo provocativo, os meus colegas fazem observações indiscretas sobre o estado em que me encontro, as minhas olheiras parecendo buracos, os olhos duas poças rasas... Aos fins-de-semana, no entanto, encontro algum conforto em visita à cidade do velho. Chama-se peiote, uma planta causadora de efeitos alucinógenos muito ingerida pelos indígenas, a nova onda entre qualquer pessoa de reputação da costa leste. Mas, com o tempo e o uso continuado, enlouqueço temporariamente.
Volto a mim numa febre, enfiado num barco salva-vidas, e escapo por pouco de emperrar as turbinas das máquinas escavadeiras com pedaços do meu corpo.
*
Estou na minha casa, parcialmente recuperado (às vezes ainda vejo vultos de nativos da terra do velho, que o velho ele mesmo, não estando, de fato, aqui, e sacando do coldre uma cenoura, um rabanete ou então, às vezes, um ovo de páscoa, se encarrega de exterminar; não me ocorre, até que o cadáver tenha passado uma quantidade significativa de tempo de sonho deitado sobre a mesa da cozinha, cantarolando trechos de La Traviata, que devíamos ter verificado o que o nativo queria antes de exterminá-lo; de todo modo, a culpa é do velho...), quando ele aparece. Atravessa lentamente a soleira, as botas de aço rangendo contra as tábuas soltas do meu chão, o chapéu tapando a vista...
De algum modo, terminamos a noite embriagados.
*
Há uma explosão na plataforma. O fogo galga rapidamente, traçando por um ou dois segundos, no ar, uma serpente, inscrevendo-a no petróleo que jorra a toda. Não se ouvem gritos, não se ouve senão o barulho de muitos passos, de uma tropa se apressando; são os homens, que chegam ao local do fogo (se é que, nesse caso, não é tudo um só fogo) carregando baldes e mangueiras, um ou outro tentando quebrar com a machadinha já sem fio o vidro por trás do qual, virgem e brilhante, descansa o botão de emergência. Finalmente conseguem, cacos se espalham, é uma vitrine enorme, um botão enorme, são necessários três homens para empurrá-lo até o fundo. Sirenes ecoam, anunciando-nos o que já sabemos, aquilo que já causou a morte de alguns, levando-os a, em chamas, 1)atirar-se ao mar, ou 2)permanecer assim, simplesmente, e esperar a hora em que não se sente mais nada, se é que essa hora algum dia chega – sem falar nos vigias que se encontravam ao pé da bomba no momento da explosão (cinco, a se fiar nos relatórios oficiais posteriores). Através de toda a cena se estende, pontuada por explosões menores, uma risada quase inumana, uma risada velha como o mundo...
*
Quando situações catastróficas como essa se produzem, a minha primeira reação é telefonar para o xerife. A sua esposa, invariavelmente, torna a me informar da sua morte. Embaraçado demais para me desculpar, derrubo o telefone e resmungo um pouco, tencionando soar como quem tenha sido ferido de morte. Depois corto a linha.
*
As explosões têm acontecido com maior freqüência ultimamente. Isso, somado à notícia do desaparecimento do velho e ao fato de que todos os dias eu encontro um item novo na minha casa, um manual de sobrevivência na selva, um cachimbo, um pote de argila recém-fabricado... Bem, isso me inquieta. Elas não acontecem jamais em lugares onde eu estou, mas em pontos diametralmente opostos; geralmente só tomo conhecimento dos números pela noite, quando o meu chefe, acompanhado de um grupo de funcionários desconfiados, aparece à minha porta requisitando um jantar. Convido-os a entrar e ficar à vontade; logo eles se enfiam “acidentalmente” pelo corredor errado, estão verificando o meu banheiro, embaixo da cama...
Até hoje, ignoro se para o bem ou não, nunca encontraram nada que levantasse alguma suspeita. De algum tempo para cá, creio que me julgam simplesmente um sujeito de sorte por não ser pego pelas explosões nem de longe, por poder ficar tranqüilo e dormir um sono limpo de imagens horríveis de fogo e de sangue, do petróleo imemorial se derramando, inútil, sobre o convés... Sortudo, simplesmente sortudo.
Mas uma voz interna me adverte: “Eu não apostaria nisso...” (SIC)
*
A punição que me imponho por ter esquecido a faca na cozinha quando ela me era necessária, apesar de ter se provado menos necessária do que parecia ser, é sonhar todos os dias com paisagens agrestes, cumbuca à mão, um andarilho de colete de couro carregando na cintura uma magnum e na cabeça um chapéu de abas largas. Me aproximo do oásis novamente, esperando ver o velho; desmonto do cavalo e passo ali a noite. Pela manhã, o sol alto no meu rosto, encontro-me nu, sem cavalo, sem magnum, sem cumbuca, sem oásis. Uma risada bem conhecida ecoa, vinda das rachaduras no solo, e então eu acordo, nervoso, o corpo cansado, atrasado outra vez para o trabalho.
Aos fins-de-semana volto para a cidade do velho, tencionando agradá-lo. Sem sucesso: ele desapareceu definitivamente, me dizem. Procuro então por algum bilhete nos seus aposentos, me aposso das últimas garrafas de mescal do estoque, guardo no meu bolso algumas pílulas que ele ingeria para se manter acordado...
*
Outra vez enlouqueço temporariamente, eu acho; agora por um período de tempo que se estende até hoje.
Entre um e outro morro há uma donzela. Entre uma donzela e outra, há um morro. Plainando por cima de tudo, vejo em perspectiva a bala de canhão que se aproxima... Disparada pelo dedo de um caubói sem rosto cujo queixo luta por se desprender do resto do crânio. Não obstante, certo de que a bala se prolongará por tempo suficiente plainando para que eu decifre o padrão das donzelas e montanhas, interprete-os e escreva um tratado sobre o assunto, permaneço lá em cima, sustentado pelo que só agora percebo se tratar de um jorro de petróleo...
E alucinações semelhantes.
|
Sexta-feira, Maio 16, 2008
[da Empresa]
CLXI.
Bem, lá estava eu, recém-chegado àquela rua, àquela hora, esperando a minha Encomenda. Me sentei no chão e joguei fora o recibo. Desnecessário guardá-lo, eles já conheciam muito bem a minha cara. Além disso, não tendo bolsos, teria de segurá-lo Deus sabe até quando, até quando eles chegassem, e... Joguei-o fora, portanto. Já começara a se desmanchar com o meu suor, terminou no ar, voou. No entanto, me arrependi imediatamente. Porque, sem recibo para verificar o endereço, ali, àquela hora, eu não sabia dizer exatamente onde estava... E tampouco saberei agora. Era uma rua ampla, me parecia infinita, uma avenida talvez... Ou uma estrada. O sol ia a pino, devia ser alguma hora por volta do meio-dia. Nenhuma nuvem no céu, nenhum carro à vista, ninguém com quem conversar amenidades ou jogar xadrez para passar o tempo. E eu começava a ficar com fome. Pensando melhor, devia ser uma estrada, porquanto o que me cercava não pertencia a uma cidade, não parecia ser uma cidade. A saber, dois edifícios, um em cada margem do asfalto. Eu os enxergava através do calor, distantes de mim uns duzentos metros, tremulantes. A fachada de vidro refletia ora o céu, ora o chão, dependendo do ponto de vista. Por trás dos reflexos, eu não saberia dizer de que cor era, se é que era de alguma cor. Não entendam isso como má vontade, eu realmente não sei dizer o que digo que não sei. Em todo caso, a fachada nunca se distinguia especialmente do resto... Me levantei para olhar melhor. A visão dos prédios, somada à da minha sombra, desaparecida sob os meus pés, me parecia um pouco assustadora. Mas, além dessas coisas, não havia nada de interessante para olhar. Eu olhava para os prédios através do ar quente, com fome, esperando a Encomenda, portanto. A crer no combinado, ela não demoraria muito a chegar. Mas eu estava longe de crer no combinado... O trato sofrível e contínuo com a Empresa junto à qual eu encomendara a coisa já me dera algumas lições sobre a entrega. O recebimento do meu primeiro pacote, anos atrás, por exemplo, do qual não me lembro nada, nem o que continha, nem quando o recebi, nem se veio em boas condições ou me levou a ligar repetidas vezes para o SAC, falar com o operador, escutar a linha cair abruptamente, nem – branco, branco, não lembro nada a respeito da entrega, da coisa entregue, senão do atraso. Atrasou três meses, doze dias e vinte e três horas. Os minutos me escapam. Ah, lembro outra coisa, sim, algo de que eu posso dar testemunho fiel. Vou dizer o quê. Que, no fim desse período, Eles finalmente me trouxeram a Encomenda. E só. Foram embora, a pé ou de carro, talvez voando, sem uma palavra. Eu ficara à beira daquela outra rua ou estrada, com o pacote na mão, se era pacote, estático. Creio que disse, em voz baixa, para dentro, Obrigado. Mas isso foi muitas horas mais tarde... É claro, embora não de todo, para vocês, que encomendei, depois disso, outros produtos, muitos outros, nem lembro quais. Nenhum chegara na hora marcada. Se agora tinha esperanças de ver despontar qualquer coisa no horizonte, portanto, qualquer motoboy que fosse, na garupa uma caixa modesta, ou até mesmo uma pomba carregando discretamente um envelope através da abóbada celeste etc., tinha ao mesmo tempo consciência de que era uma esperança forçada. Com efeito, era tão forçada, e a consciência disso tão aguda, que eu não a sentia como algo bom, mas puramente amargo. E, sob o sol, contorcia o pescoço em silêncio. Bem. Acho que posso dizer, com alguma fidelidade aos fatos, que, quando vi um homem saindo pela portaria do prédio da margem esquerda, não me alterei em quase nada. Isso num primeiro momento. Podia ter imaginado coisas, fantasiado as fantasias da esperança... Mas não, não imaginei nada. Mas isso se explica, eu tinha medo. Por volta do meio-dia, quando o sol é tão impiedoso quanto a Empresa por cuja Encomenda eu esperava, não pude ver o homem e dizer imediatamente, com toda a certeza, que se tratava de um homem. Enxergava um ponto, esse ponto se mexia. Era tudo. Ele se aproximava, ou...? Não sabia, não me atrevia a querer saber. Não soube ainda por alguns segundos. O problema é que eu sou míope, direi tudo, e embora ele avançasse a uma velocidade razoável, não me atrevi a me dizer que se tratava de um homem antes que ele chegasse a uns cinco metros de distância do meu nariz. E então, dizendo a mim mesmo, finalmente, que era um homem, e me alegrando por isso, me decepcionei sobremaneira, por outro lado, com a falta de pacote visível sobre ou sob os seus braços. Mas o pior vem agora. Porque, como se grandes sofrimentos estivessem só começando a se mostrar, a decepção inicial sendo um nada, pensei desgraçadamente nos meus desgraçados motivos para encomendar coisas da Empresa, que mais me deixava na mão do que qualquer outra coisa. Isso me fez corar. E eu não sou tímido... Apenas faço corar quando me sinto humilhado. Os motivos, digo, as razões porque continuo encomendando coisas Deles, eu não as abordarei aqui, sinto muito. Bem. Corado, então, acenei com a cabeça para o homem. Ele retribuiu. Puxei um assunto, creio que foi o clima. Bom, não é, eu disse, ou algo assim, o tempo hoje. Ele tirou o chapéu, continuou a me encarar, impassível. Eu soube imediatamente que, embora se tratasse de um homem, não se tratava de um Entregador da Empresa. Eles nunca tiram o chapéu. Me decepcionei ainda outra vez, mas não corei. Quer dizer, o rubor na minha cara não redobrou. Pelo contrário, me senti mais solto, embora desapontado, tendo companhia, alguém com quem me distrair... Afetei indiferença, despojamento, irreverência, dizendo, Parece que não chove, hem. Soa ridículo, admito. Mas na hora me pareceu bastante espirituoso. Digo, me pareceu bastante espirituoso por um segundo, passado o qual, com efeito, corei duplamente. Talvez percebendo o meu estado de angústia, e se entretendo com ele, o homem tenha resolvido que faria o possível para aumentá-lo, porque não moveu um músculo para me responder. Tanto pior, eu pensei... E desviei a vista do seu rosto para voltar a encarar os edifícios à distância. O problema, agora, era que ele se encontrava mais ou menos entre os dois prédios, o que me impossibilitava de ficar olhando tranquilamente. Bem. Vocês já devem estar me conhecendo. Então será desnecessário dizer que, os minutos seguintes, passei-os calado, fingindo não dar pela presença do homem, fingindo ver através dele. E foi assim que, não vendo, evidentemente, através das coisas, fui pego de surpresa pela aparição do segundo homem. A sua cabeça me pareceu despontar do ombro do primeiro, e eu gritei. Assim me traí, corando um pouco mais. Logo raciocinei friamente, para chegar à conclusão de que, para ter percorrido o caminho todo até onde estávamos sem que eu o visse, ele devia ter saído do prédio da direita, cuja entrada o primeiro homem encobria parcialmente com a barriga, e se esgueirado atrás da mesma até onde estávamos. Visando, portanto, me assustar. Raciocínio este que não me reconfortou em absoluto. Logo tirou o chapéu, como que em cumprimento, e eu soube que ele tampouco era um Entregador. Mas o que podiam ser, então? As nossas sombras, a essa hora, já começavam a se alongar, alcançando talvez a estatura de um macaco. Fiquei parado por alguns minutos, conjeturando. Se não eram Entregadores... então... Mas os dados eram insuficientes. Eu começava a me desesperar. Tratava-se, no entanto, de um desespero frio, silencioso, imperceptível aos olhos deles. Eu já nem corava. E fiquei pensando, ou fingindo que pensava, ainda por alguns minutos depois de ter decidido o que fazer, a saber, perguntar a eles o que pretendiam fazer comigo. Uma pergunta eminentemente covarde, talvez... Sim, certamente covarde, sem dúvida. Mas a isso se chega analisando a questão a frio. Àquela hora, hélas!, eu temia pela minha vida. Isso exclui o entendimento. Bem, OK, talvez não fosse a minha vida o que estava em jogo, afinal, senão a Encomenda, e talvez eu o reconhecesse, se questionado a respeito, mesmo imerso no calor do momento... Que era infernal. O sol já devia ter tostado pelo menos metade dos meus miolos, como se diz. Bem. Juntei a coragem, portanto, enquanto eles me olhavam. Até que perguntei. E eles responderam, Somos do SAC, estamos aqui para servi-lo. Bem, eu disse a mim mesmo, bem, bem, finalmente! Agora estou salvo! Comecei pelo básico, perguntando onde estávamos. Eles responderam satisfatoriamente. Tão satisfatoriamente que, apesar de tê-los compreendido, me esqueci da resposta quase que de imediato. Era algum lugar óbvio, sabe, desses em que você diz, ao chegar e ser informado de que está lá, Ah, ótimo, agora vamos embora, eu já ouvi falar muito daqui e é exatamente como dizem. Portanto passemos à próxima. Bem, eu não tinha mais o que perguntar, para falar a verdade, a não ser a respeito da minha encomenda. Mas me interessara, ó curiosidade, ó idiotia, pelos personagens que tinha à minha frente. E vocês pensaram que se daria de outra maneira? Eu, perguntar pelo que me interessa tão livremente, sem rodeios, e conseguir saber o que quero, e ir embora de uma vez? Hm. Vejo por aí que me enganei, vocês não me conhecem nem de longe. Sem saber de onde tirara essa idéia, perguntei sobre as condições trabalhistas na Empresa. Eles se entreolharam... Colocaram o chapéu... Tornaram a retirá-lo... Se engasgaram e morreram. Ó azar! Em que outra oportunidade eu conseguiria uma entrevista tão certa com o pessoal do SAC? Em que desertos procurar, em que longínquas florestas escuras passear à noite com uma lanterna, atentando aos duendes? Etc. E isso sem falar do meu pacote, que ainda não chegara, que eu não sentia próximo, pelo qual eu teria provavelmente de esperar, sob o sol, sob a chuva, sob a noite, sob o dia, em cima do chão, embaixo do céu, empoleirado na minha própria sombra, depois não, e em dias frios me encolher contra o vazio do meu ombro, jamais encontrando conforto ou uma alma desinteressada com cujo dono eu pudesse partilhar o prazer de uma partida de xadrez... Os dois prédios, ao fundo, luzindo, luzindo, luzindo, luzindo... Evidente que, em determinado momento, recebi o pacote e fui para casa. A entrega se deu como de costume, aliás, sem nada digno de nota, e, como já estou bastante perturbado emocionalmente, eu não vou mais tocar no assunto. De todo modo, não me interpretem mal, eu esqueci, eu realmente me esqueci do que havia no pacote. Bem. Boa noite.
|
Sábado, Maio 10, 2008
[Daiane]
CLX.
1
É inverno, um inverno aconchegante esse ano. Compramos um aquecedor de teto para o meu quarto, cômodo em que, se tudo correr bem, passarei todo o resto da vida. Sentado ou deitado, nunca de pé. Preferível não desperdiçar energia. Ademais, não seria possível, pois eu esqueci como me mexer. Um evento significativo, outro dia, envolvendo a minha mão, ela se mexeu. Mas os esforços para chegar a isso me acabaram. Os dedos tremularam, bateram um por vez contra o veludo roxo, depois pararam. Querendo significar alguma coisa, certamente. Mas de tanto ter me decepcionado com interpretações ruins, eu não ligo mais para o que a minha mão faz, quando faz, contanto que não me faça mal nenhum. Não vou reclamar, pelo menos não já, ela tem se comportado bem ultimamente. Pela janela, não há janela, pela porta então entra Daiane, carregando uma bandeja. Diz, Olá, boa noite, é hora de jantar. Eu tenciono dizer, Não tenho fome, obrigado. Mas não digo. Ela deposita a bandeja sobre o meu colo, de qualquer jeito. O peso das bandejas acumuladas não me importa, eu não sinto mais as pernas. Suspeito que Daiane ache esse um bom método para me incitar a levantar. A minha coluna vertebral foi fraturada, tenciono dizer a ela, quando me irrito o suficiente. Mas ela saberia que não é o caso, não. Acha-me talvez preguiçoso, talvez com razão, pode ser preguiça. O fato é que, a não ser que não me seja oferecida escolha, que Daiane venha e me carregue para outro lugar, não me levanto da minha cadeira roxa por nada. Muito menos agora, com o aquecedor no teto. Se quisesse ajudar, diria a Daiane, se pudesse dizer, você me traria alguma comida sobre as bandejas, o que acha disso, em? Mas ela não me ouviria, talvez. Ou faria que não me ouve. Poderia ser que eu não tivesse dito nada, não é nada fácil saber. Depois ela se retiraria. Calculo. Todas as bandejas depositadas no meu colo até hoje somem os quilos de uma pessoa adulta mais ou menos bem gordinha. É um bom peso para agüentar por curtos períodos de tempo. Mas eu tenho todo o tempo do mundo... é a única coisa que tenho. Quando ela se retira, de hábito, eu fecho os olhos. Se é que me importei o suficiente para abri-los com a sua chegada. Ela é basicamente sempre a mesma, uma mulher, dois braços, duas pernas... entre as pernas... embaixo dos braços... parece qualquer outra... todos os dias. Me constrange olhar toda vez, como se quisesse atacá-la. Os meus olhos têm essa qualidade, quando olham, e sobretudo repetidamente, parecem querer atacar. Talvez eu queira, me é indiferente. Talvez algum dia eu me erga só para atacá-la, segurá-la pela cintura, ela querendo escapar, gritando tudo quanto me ajudou, e eu ali, um homem, na frente de uma mulher... Daiane... não faz o meu tipo. Mas ela é a única que parece querer me ajudar, não sei por quê. Apesar de não trazer comida. Com os olhos fechados, sozinho no meu quarto, logo eu me inquieto, quero abri-los novamente. Mas, se não o faço nem todas as vezes que Daiane entra, por que daria de ficar olhando por aí, a esmo, feito um louco? Não sei. No entanto, me dá essa vontade... eu não me submeto... ... ...entreabro uma pálpebra. Pronto, nada de novo, se era o que eu queria saber. Mas será que, para perceber o que eventualmente pode haver de novo, eu não deveria ao menos entreabrir a outra? Para ganhar alguma perspectiva, como se diz? Etc. É uma longa discussão interna. Invariavelmente acabo fechando o que havia entreaberto. Começo a ver, contra o escuro da pálpebra, esboços de linhas, de arestas, algumas formas geométricas se formando... agora outras... vão ficando mais complexas... um dodecaedro, pronto, pronto, é hora de abri-los. Não suporto mais que um dodecaedro. Seria bom que Daiane me ajudasse nesse respeito, me fizesse superar o medo que eu tenho das formas geométricas mais complexas. Só não vejo como poderia fazê-lo. Ela certamente também não, é uma menina muito inocente. Talvez, quando olha nos meus olhos, quando eu os abro ou tenho abertos quando entra, quando eu os tenho abertos e ela olha incidentalmente nos meus olhos (ela não o faz de propósito, não), talvez perceba o que eu penso dela? Tenho essa impressão. Não me espantaria descobrir que me teme, e por isso me ajuda. A minha mão direita tremula vagamente só de pensar. Foi ela quem me comprou o aquecedor, sem que eu pedisse. Fingi irritação... mal fingido, é claro, não posso me mexer... Ela não acreditou. Se eu pudesse, tocaria no corpo quente de Daiane?... não creio... não com essas bandejas, pelo menos. Se ela entendesse que não deve depositá-las no meu colo! Levantando daqui e olhando para baixo, hipoteticamente, encontraria um sulco nas minhas pernas, outro na poltrona... Seria difícil verificar qual o mais fundo. Mas não tenho esperanças de me fazer entender, não... ...tenho outras esperanças. Espero ver a cor da minha poltrona mudar, uma delas. Roxo, roxo não me agrada. Foi Daiane quem comprou toda a mobília, quando me mudei para cá, sem pedir a minha opinião. Ademais, eu não poderia dá-la, visto que não tinha uma. Se tivesse, creio que a guardaria para mim, sobre o mármore da lareira, numa caixinha afetada de chumbo, pesada e negra... como uma urna funerária... Eis-me. Todo o cômodo é roxo, todos os móveis, a estante inclusive, e também o aparador, são roxos. Talvez para combinar com a minha cara. Fechar os olhos com tanta freqüência pode decorrer disso, de não querer me intoxicar. As arestas das formas geométricas que me ocorrem são douradas, vagando contra o fundo negro das pálpebras... vazias, a superfície negra... vértices pontiagudos, linhas, tesouras. Um dia eu fui muito hábil com as tesouras. Aconteceu algo, não sou mais. Nem com tesouras, nem com carros, nem com crianças, nem com mulheres, nem com máquinas de escrever, nem com trabalhos braçais, nem com homens, nem com bicicletas, nem com velhos. Oh, são muitas as coisas com relação às quais eu absolutamente não sou habilidoso. E talvez nem se possa falar em falta de habilidade, no meu caso, uma vez que não posso me mexer. Daiane me mexe. Quando não agüento mais ficar de bruços ela me vira de costas, as costas cansam, não é problema, ainda tenho os dois lados, o direito e o esquerdo. Dá algum trabalho me virar, não nego, e Daiane afinal talvez seja de algum valor. Pelo menos para mim. Um valor pouco elevado, é verdade, mas isso apenas porque eu mesmo não ando tão em alta... E depois volto à minha poltrona roxa. Isso é que é vida. Mas isso não vem ao caso. Quando os meus membros, cansados de descansar em uma determinada posição, ficam roxos, eu nem sempre percebo. O primeiro aviso que tenho me é dado ao fechar os olhos. As formas demoram a aparecer, fazendo-o, quando o fazem, pouco nítidas, amebóides... abro os olhos. Procuro voltá-los para baixo, já desconfiado. Se a minha posição não me permite tanto, começo a gritar. Grito, Daiane, venha ver se estou roxo, Daiane!... mas não, não é assim, minto. Eu não gosto de mentiras. Eu gostaria de gritar o que disse, é certo, mas o meu controle sobre o trato vocálico é muito relativo. Em bons dias consigo articular três, quatro palavras mais ou menos inteligíveis. De regra, nenhuma delas calha de ser Daiane, nem Venha, nem Ver, nem Se, nem Estou, nem Roxo. Raras exceções feitas a Estou, e mesmo assim olhe lá. Portanto, sem saber o quê, exatamente, quando me desconfio na iminência de um sério caso de gangrena, grito, tencionando significar aquilo que já disse, e dirigindo em intenção o meu chamado especificamente a Daiane, que é para não haver dúvida. Em se tratando de saúde, é preciso não facilitar. Talvez devesse acrescentar o sobrenome? Não sei onde estou, exatamente, mas não acredito possível viverem sob o mesmo teto duas mulheres chamadas Daiane... isso me parece absurdo. Estou pronto para admitir, frente a evidências concretas, que sim, essa é uma possibilidade, afinal, mas... Bem, não importa, de todo modo. Pois ela não me entende. Ninguém me entende, muito menos Daiane. Não obstante, ela aparece na porta do meu quarto, como faz agora. Eu estive gritando? Sabe-se lá. O que o senhor deseja?, ela me pergunta. Sempre tão meiga, tão suave! Eu resmungo alguma coisa, querendo significar, Sabe-se lá. E de fato não sei, não é má vontade. Desejaria talvez desejar alguma coisa, só para agradá-la, mas... não sei o quê. E, contudo – aonde nos leva a compaixão! –, com o fim de esboçar um sorriso, luto contra a minha cara impassível, perdendo, é claro. Mas não me decepciono, já estou acostumado. O meu corpo, apesar de pequeno, sempre foi demais para mim. Bem. Se não mais, conservo uma vantagem por não conseguir me exprimir nem de longe, qual seja, ela pensa que sim, que eu quero alguma coisa, não andei gritando, se é que andei, só por pirraça. Vem-me à cabeça a idéia de que, se eu estivesse roxo em algum lugar, ela me seria útil agora. Portanto me meto a querer estar roxo. Resmungo mais um pouco nesse sentido, debatendo-me o quanto posso na poltrona. Oh, não é muito, não, não sou capaz de muito, apenas o que outra pessoa chamaria um tremelique. O meu maior desejo, quando algo assim se produz, é não ser mal interpretado. Um tremelique bastará. Exausto, fecho os olhos. Quando sinto no quarto a presença de Daiane, coisa estranha, me permito ver formas além do dodecaedro. Além disso, elas são mais nítidas, de um dourado quase intolerável. Gosto disso, desse poder visionário, as linhas se trançando numa teia... agora num pônei... agora no... rosto de Daiane... ! ... Me custa admitir, mas é verdade, vejo quase nitidamente, projetado nas pálpebras, o rosto disforme de Daiane. O que isso significa, se significa algo, não me atrevo a querer saber. Mas... abro os olhos e... onde está ela? Já foi embora. Sobre o meu colo, uma nova bandeja. Já ficou bem claro que eu não aprovo essa mania? E não é pouca coisa alguém como eu não aprovar alguma coisa, quanto mais uma mania. Pois creio mesmo que sou um pouco maníaco. Mas essa é outra das coisas que me são indiferentes. Tudo que diz respeito a mim mesmo, tenho notado nesse período na poltrona, me é mais ou menos indiferente. Não me importo em absoluto com as bandejas, para dizer a verdade... Reclamo por reclamar... porque é algo que, entenda-se, não estava ali antes, e agora está... o que me causa certo desgosto. Se eu fosse este quarto, certamente teria me irritado com a minha deslocação para cá. Quando soubesse que seria para uma estada definitiva, então... teria... permanecido sendo um quarto, provavelmente. O que não é dizer que não me importaria. Não, não... estou convencido de que, se fosse este quarto, me importaria mais com a minha presença do que faço sendo eu mesmo. O entra-e-sai de Daiane sendo a única alteração do ambiente em termos físicos que eu não sou capaz de odiar. Além de, em termos gerais, a única alteração que se produz com alguma regularidade aqui. Vez ou outra, é certo, há objetos roxos indesejados no chão. Espalhados. Coisas que eu não sei reconhecer, um... chocalho?.. uma pedra?... e uma... outra coisa, outra coisa roxa. Só pensar nisso já me deixa confuso. Vendo-os, que estado nervoso adentro eu não me lanço! Acompanha o tremor das minhas mãos o dos meus cotovelos... sinto até, em dias especialmente úmidos, os meus dentes rangendo, a pontinha da minha barba roçando levemente o meu peito... Como eles vieram parar aqui?!, eu me pergunto. Não com essas palavras, e nem em voz alta. Depois me meto a procurar esquecer a pergunta, a fim de me acalmar. Estranhamente Daiane aparece, fiel, à porta, sorrindo. De quê? Eu estive gritando outra vez? Não registro. Entra, suave Daiane, e recolhe os objetos! Aproveita para depositar outra bandeja! E me mexe, se for preciso! Evidentemente não digo essas coisas bonitas, nem as diria, se pudesse, pois as acho, apesar de bonitas, um pouco exageradas. Ela faz o serviço, de todo modo, eu não preciso me preocupar em dizer. E, milagre, os objetos desapareceram!... Só me resta a poltrona, a minha própria companhia, o murmurar aconchegante do aquecedor no teto... Ele é roxo, como todo o resto, e não dourado, segundo a moda vigente entre os aquecedores. Tenho certeza de que Daiane fez questão de que não estivesse na moda, julgando-a vulgar. Bem. Da minha parte, se me fosse dado escolher e eu estivesse no humor para escolher e conseguisse articular alguma palavra declarando de modo minimamente inteligível a minha escolha, teria escolhido o modelo da moda. Mas me apraz comprovar alguma personalidade em Daiane. Uma personalidade um pouco mórbida, é verdade. Mas com isso eu me acostumei facilmente... De resto, a função que ela ocupa requer certo nível de morbidez no sangue. Sim, pois se eu mesmo sou um pouco mórbido? Admito. E que palavra terrível! Destrinche-a, mór-bi-do. Fica ainda pior. Gostaria de ouvir Daiane dizer mórbido, lentamente, enquanto traz a minha comida... Seria comovente. Mas não é nada provável que algo parecido se produza, portanto sendo o meu destino, me parece, não me comover ainda, pelo menos não por hoje.
|
2
As luzes estão se apagando nos outros cômodos. Isso significa que é hora da terceira visita do dia. Segunda, digo, perdão. O personagem da vez é outro, um senhor, um Senhor Johnson. De que cores ele se veste? Poucas. Não nenhuma, mas poucas. Ora, o Senhor Johnson não tem preferências fixas. Somos parecidos nesse quesito. A não ser por um fato, qual seja, eu tenho uma preferência fixa, a de que nada se produza. Enquanto o Senhor Johnson não tem nenhuma, nenhuma, nenhuma. Um pouco assustador. Ele já vai entrando pelo quarto. Hoje veste um paletó, um paletó cinza, calças da mesma cor, gravata de cor irreconhecível, camisa branca por baixo. Todas as peças menores do que deveriam ser. Para quem acha que prefiro descrições de cores a de formas, aí vai uma confirmação. Qual é o seu corte de cabelo, de que
marca são as suas roupas, que tipo de brilhantina ele usa no topete comicamente exagerado? Isso não vem ao caso. Penso que ele me representa, a mim, que sou eu e não ligo para as roupas que ele usa. Pois se não faz senão ficar parado me observando, feito um manequim, e ademais um manequim sem cabeça, não sei por que o digo, mas o direi mesmo assim, me parece exato, ou pelo menos o mais próximo que algum dia eu chegarei do exato, que função estaria cumprindo além de me representar? As razões da minha crença nessa representação me são obscuras. E eu bem detecto no meu raciocínio um lapso Deus queira que temporário sob o efeito do qual me consagro a contemplar teleologicamente o mundo. Um lapso puramente arbitrário, como todo o resto... Bem. Não obstante, não obstante. Quando não pode se mexer, o sujeito fica um pouco teleológico. É inevitável. Imagino, mais adiante nesse lapso, que na mesma medida em que o Senhor Johnson é uma representação minha, eu sou uma representação dele. E depois me apego a essa suposição. A que confiro força de verdade, apesar da sua escancarada falta de vergonha. Pois me parece desavergonhado aquilo em que eu acredito e não entendo. É a fé despontando tarde, tarde demais. E, como não poderia deixar de ser em mim, somada de uma consciência mais ou menos clara da sua falta de sentido. Ciente da minha nova fé, portanto, e em certa medida visando a sua extinção enquanto é tempo, eu digo ao Senhor Johnson, Ora, Senhor Johnson. Ele responde, Ora, você. Eu digo, Ora, Senhor Johnson, queira por favor se retirar. Ele diz, Ora, queira se retirar você. Reconheço-me na sua falta de tato? Por certo que sim. E, não sendo do meu feitio tolerar, acabo grasnando por Daiane. O Senhor Johnson, pude notar, teme Daiane. Isso provavelmente significa que eu também, num certo sentido. Pois a um aleijado, mesmo que fajuto, como eu, repugna o contato com os sãos. Aqueles pés andando... dois, em vez de um ou nenhum... excessivos... abomináveis! E, num segundo, então, não estou mais seguro de que quero ver Daiane, preferindo talvez a presença de todo modo inconveniente do Senhor Johnson. Que grasna, por sua vez, pela sua própria Daiane, cujo nome se transcreve Henrieta. Não me pergunte! A analogia me escapa. Não obstante, sinto-a lá. E, como sentir não fosse suficiente, verifico que Daiane e Henrieta adentram o quarto sincronizadas, pela janela, não há janela, pela porta então, cada uma com sua bandeja. Além disso, percebo pouco a pouco que Henrieta e Daiane são cópias idênticas uma da outra. Sim, pouco a pouco. Pois a primeira visão da criada do Senhor Johnson foi suficiente para me fazer fechar os olhos outra vez, procurando conter a raiva. Quem ele pensa que é, afinal, para se servir da sua criada no meu quarto? Acaso é o seu? Não. É o meu. E ele, sou eu? Não. Ou sou? Tremo levemente. Creio mesmo que uma bandeja das do meu colo, sustentadas pelas minhas coxas nervosas, muda um pouco de inclinação, chegando a deslizar alguns milímetros sobre as outras. O que me leva a abrir os olhos. Só então pude continuar a perceber. A semelhança das criadas, digo. E a descoberta recente de que temo Daiane me faz, e isso eu percebo de uma só vez e como que em choque, amar Henrieta. Talvez amar seja a palavra errada... Reformulo. Me faz gostar de Henrieta. Dizer que temo Daiane me parece igualmente forte demais, mas fazer o quê, fazer o quê, já reformulei o bastante por ora. E isso tudo, oh, que não me interpretem errado!, não porque eu gostasse de ser quem eu era, mas sim porque, conforme já disse, as mudanças me causam certo desgosto. Daí que, me sentindo feliz por verificar que gosto de Henrieta, não estou absolutamente feliz. O meu estado natural é o apático, qualquer outro constituindo anomalia esquisita. O meu caráter, penso, corre perigo. Exemplo disso essa paranóia. Não é inverno, afinal, e eu não tenho o meu aquecedor novo no teto, funcionando? O que mais? Portanto a solução que encontro é, me apego ao que era, fazendo de mim mesmo, no passado, mentalmente, uma imagem mais ou menos estilizada, de início. Depois coloco nessa imagem alguns detalhes importantes, boca, nariz, olhos etc. Depois os outros detalhes. Evito ao máximo as bem conhecidas falsificações da memória, o saudosismo, o senso exacerbado de progresso, bem como quaisquer outros sensos exacerbados que possam vir a se manifestar nessa reconstrução... Reconstruo... Pronto. Mas não estou contente com o resultado. Talvez me saísse melhor se as duas criadas não estivessem aqui, me perturbando, todavia hipótese em que esse exercício mental nunca teria sequer começado a me ocorrer. Sim, pois agora coisas me ocorrem sem que eu peça! Eu penso o tempo todo, com essa gente no quarto! E os resultados são menos catastróficos do que eu esperava, vá saber. Não me inquieto tanto, me parece, com que esteja pensando tanto. Se me inquieto, é no sentido de não me inquietar. Algumas pessoas temem o medo, algumas o dançam. Eu estou dançando. Prova disso é o diálogo que se estabeleceu, enquanto eu narrava a cena toda, entre nós quatro, exceto Daiane, isso dá três. Ela é tímida, afinal! O que nunca pude verificar antes. Me espanta. Da minha parte, se eu posso me gabar de uma coisa, é dessa capacidade, essa capacidade de falar merda ao mesmo tempo em que penso numa merda completamente diversa. Enquanto o Senhor Johnson discorre sobre a sua árvore genealógica, que retraça às origens do mundo, se não do universo, Daiane se encolhe mais e mais, se enfia na concavidade entre um ombro e outro. Eu exclamo! Oh! A sua cabeça, a de Daiane, eu poderia jurar, está agora mergulhando tubo digestivo abaixo. O Senhor Johnson diz ter antepassados negros e judaicos, e filhos de reis, e reis eles mesmos, embora nunca um muçulmano, seria bom um muçulmano para completar. Mas,
hélas!, é praticamente impossível encontrar um deles na praça hoje em dia! Rá! Rá! Rá, de fato. Mas não me entedio, não. Para além das aparências, me satisfaz observar Daiane, cujo tronco agora se desfaz para dentro como se fosse de cera. As suas pernas mal se sustentam na vertical. Os seus braços em poças alcalinas no chão, cor de burro-quando-foge, dois olhos na terra olhando para cima. A terra tem milhares de olhos, é a minha teoria. Mas não é hora de entrar nisso, temos uma cena a desenvolver aqui, portanto foco, atenção – o Senhor Johnson também carrega a sua cota de bandejas! Oh, são bandejas morais, bem entendido. À semelhança de mim, ele odeia a mentira. Mas isso nele é volúvel, argumenta, pois não vê distinção fixa entre mentira e verdade, donde às vezes, ele continua, metendo uma mão no bolso do casaco para coçar mais ou menos discretamente a barriga, acaba acreditando estar em algum lugar quando, na verdade, não exatamente
está num lugar, mas outra coisa, outra coisa por completo. Pergunto o quê. Outra coisa, ele repete. Frente à sua expressão contrafeita diante da minha pergunta, Henrieta coloca-se entre nós dois, face a face comigo, que estou em frente à lareira, em face da qual, mas um pouco para o lado, Daiane virou uma só poça de cera derretida. Todos nós podemos constatar agora, com relativa certeza, que ela era mesmo uma menina muito frágil. Digo isso, e o Senhor Johnson concorda. Mas em nada contribui o fato para aliviar a tensão do estado das coisas. Bem, vamos cortar um pouco, apressar para o fim do episódio talvez, bem, isso, aqui estamos, portanto, a situação já resolvida, eu estou novamente sozinho no quarto, encarando uma revista de moda aberta nas mesmas duas páginas há uns quarenta minutos. Ela caiu no meu colo, assim ficou. Quem as jogou, se foi alguém, eu não sei, nem quero saber, nem me atrevo a querer querer saber. Os convidados finalmente fora do quarto, a minha mente vazia. Não sei exatamente o que nunca soubera. Me sinto normal, normal, normal, nooooorrrrmal. E a revista só me serve para um propósito, a saber, será cruel, deve ser, me é indiferente, desviar os olhos da poça que Daiane agora é. Chega a hora de dormir. Mas eu não durmo. Nunca.
|
3
Embora feita poça, sinto a presença de Daiane no quarto exatamente como mais cedo hoje. A madrugada chegou. E também a sinto. A tal ponto que sou obrigado mais uma vez a fechar os olhos, de resto único expediente de que sou capaz. Então fecho os olhos. Permaneço assim por algum tempo, descansando, as visitas me exauriram, coisas demais aconteceram, mais do que eu sou capaz de contar nos dedos, Rá!, rio alto, boa piada, eu não sei contar e os meus dedos, pelo que sei, podem ter caído já há muito tempo. No entanto, algo me impede de atingir o relaxamento completo, a saber, ... ... ... ... ... eu gostaria de saber. Mas não está claro. Ah, talvez as bandejas? Que Daiane esqueceu de tirar do meu colo antes de se liquefazer? Espero que não esteja morta. Ou talvez não sejam as bandejas, afinal foram colocadas aqui há tanto tempo, o suficiente para que eu me acostumasse... Creio mesmo que sentiria falta da pressão que exercem sobre os meus membros, me sentiria flutuar como um balão, talvez, e não gostaria disso. Nada que me faça levantar daqui soa bem. Portanto descartemos, por ora, as bandejas. Faz calor agora no quarto, Daiane borbulha. O aquecedor espera que o desliguemos, enquanto isso cumprindo fiel a sua função. Entretanto desligá-lo está além do meu poder. Serei obrigado a tostar, talvez, se ninguém aparecer. E ninguém nunca aparece, exceto o Senhor Johnson, todos os dias. Serei obrigado a tostar, definitivamente. Se era me preservar vivo o que Daiane queria me colocando nessa poltrona, o que ademais é duvidoso, bem, aí está outra vez, um erro. Me julgando apenas preguiçoso, em vez de apenas uma coisa incidentalmente humanóide, que é o que eu mesmo julgo ser, ela não podia prever que eu não me mexeria jamais, suponho. Mas isso não é culpa minha. Daiane, por sua vez, tampouco se mexendo, e com mais certeza do que quanto a mim posso dizer que não se mexerá, exceto pelo ocasional borbulhar, não está numa posição que lhe permita se queixar. Eu também não, não me queixo. Faço algo, sim, algo de primeira importância, é o silêncio. O silêncio mórbido que me é tão querido. Bem. Calo momentaneamente também os pensamentos, para radicalizar. No entanto, nem dois minutos passados, me pego na iminência de pensar que as formas geométricas não estão nem maiores nem menores essa madrugada, se desenvolvem como sempre, como se Daiane não estivesse aqui... Não saberia dizer se está... Será que...? Já vou quase começando a pensar como se deve outra vez quando escuto um barulho embaixo da cama. Quem? Quê? Quando? Aqui, agora, Henrieta! Parece que, ao cortarmos fora o fim da situação crítica que se desenvolveu no parágrafo anterior, afugentamos a pobre Henrieta para baixo da cama! Oh, por pouco não morreu, imagino, estrangulada pela minha imaginação. Ou talvez não seja absolutamente assim, podia muito bem ter se retirado com o Senhor Johnson, se é que ele se retirou mesmo. A essa altura, penso enfim, nada é menos certo. Mas ele não aparece, e nem voltará a aparecer antes da hora. Eu conheço o tipo. Bem, Henrieta, eu tenciono dizer e resmungo, Rrrrrraar, rweeew reaawr? (O que você está esperando?) Rawrrrr rrrrrrr rrrrr aaaaaareeee! (Desligue o aquecedor, limpe Daiane do chão e, por favor, não toque nas bandejas!) Mas ela apenas me olha. Estática. Compreendo que não me compreende. Realmente, cara de uma, focinho da outra, também intelectualmente! Raaaaaawrrr, eu rosno, verdadeiramente
rosno dessa vez, modulando a minha voz de modo a deixá-la quase parecida com a de um ser humano. Mas, dessa vez, nem eu mesmo sei o que quero dizer. Henrieta saca uma bandeja de baixo do avental, coloca-a no meu colo sobre as outras, aumentando significativamente o sulco nas minhas coxas. Eu resmungo, Raaawr, reeeeeerrr, querendo dizer o quê, dessa vez não sei de novo. Sinto dor? Será exagerado dizer, não é dor, não... chateação? aborrecimento? parada cardíaca? Me parece esquisito, talvez esteja morrendo, tenho a sensação de que fico cada vez mais exato. As linhas da pálpebra traçam uma rede dourada que me envolve, castração? prostração? heroísmo?, oh, nunca brilharam tanto, quase diria, se pudesse sentir, se pudesse sentir e além disso saber que sinto, mas sobretudo se pudesse dizer, que sou quase feliz por um instante! Bem. Acordo numa nova posição, o meu nariz enfiado na poça de Daiane. Descreveria melhor o que se produziu, diria talvez, Estive inconsciente por várias horas, mas as horas não me agradam, tampouco a inconsciência, assustadora, e além disso não sei se é o caso. Posso muito bem ter nascido assim, me soa bastante verossímil, aliás, que tenha nascido assim, chafurdando em cera, e pensado que havia ido parar na poltrona por obra de alguma boa alma atendendo pelo nome aleatório de Daiane, é típico de mim cometer um erro desses, pensar que estou num lugar quando estou em outro, e que sou eu mesmo quando sou na verdade outra coisa, outra coisa por completo. O quê?, Daiane pergunta. Outra coisa, eu respondo, outra coisa... Resmungo. Weeeeeee weeee weeeeeeeeeee? (Onde você está, Daiane?), eu pergunto, gargolejando e me afogando um pouco com o líquido que eu a imaginara. É uma situação constrangedora, me congratulo secretamente por não ter amigos observando e tomando notas. Aqui como em lugar nenhum. Bem. Daiane evidentemente não responde. Então penso em explorar as possibilidades dessa nova posição. E o aquecedor de teto estoura. Faíscas caindo pelo meu quarto, excessivas, julgo, cataratas delas. Sinto-as chamuscando as minhas costas, e isso é notório. Porquanto havia muito eu julgara, afinal precipitadamente outra vez, ora vejam, que não tinha mais o sistema nervoso central. E mantive a opinião firme, constante, não oscilando nem para mais, nem para menos, nunca sentindo exatamente nada, a não ser o eventual tremelique e um pouco de fome, até agora. Não chegam a doer, as faíscas. Sinto-as mais como cócegas, é mesmo reconfortante, um carinho, um carinho elétrico. Mas não são somente as faíscas que jorram do aquecedor de teto, oh não! Vejo caídos no chão, roxos, uma pedra, um chocalho e uma... coisa, uma outra coisa. Com que propriedade os vejo, perguntarão, e eu responderei, Não muita, veja só, a minha cara está metade imersa na poça de Daiane, e a metade livre, eu a tenho voltada num ângulo esquisito, de modo que só vejo o reflexo que as faíscas e os objetos fazem na janela. Mas não há janela, pela porta então entra Henrieta, feições arranjadas o mais assombrosamente possível. Ela pega a revista de moda, abre-a nas mesmas páginas que eu lia, coloca-a sobre a minha cabeça. Dessa vez eu não digo nada. Daiane pergunta, Deseja algo mais, ao que eu tenciono responder, Acho que sim, Daiane, querida, não sei, eu estou confuso, você poderia por favor me explicar? Eu não sou a Daiane, Henrieta responde. Eu me espanto. Duplamente, aliás, porque, oras, não estive falando? Façam cairem as minhas barbas se me volta a voz, se, mas isso é impossível, me volta a força de me levantar e andar por aí, talvez volte não seja a palavra certa, mas venha, brote, porquanto nunca a tive, digo força. Tempero a garganta para fazer um teste, penso numa frase, a frase mais bonita que eu conheço na minha língua. Pensado, abro bem a garganta, agito as cordas vocais e grito... Aweeaaerr! REEaaaa! Que pena, que pena, não foi dessa vez. As minhas mãos, percebo de relance, estão roxas. Mas Daiane não está mais aqui para me virar. No entretempo eu tremo. Inteiro, agora. Me espanta. Os meus dentes se entrechocam, mastigando incidentalmente um pedaço do tapete, me fazendo engolir cera, a minha primeira refeição em dois dias. Digo dias como quem diz anos ou séculos. Agora, com o aquecedor em chamas, e apesar das chamas mesmo, o frio que faz lá fora se infiltrou pela janela, não há janela, pela porta então, está fechada mas embaixo ainda há algum vãozinho e ademais, coisa inexplicável, me parece, eu sempre fui um ótimo condutor de calor, um ainda melhor radiador, numa palavra uma boa pessoa, essencialmente, embora de temperamento bizarro, sim, isso é exato, tanto quanto o de um ornitorrinco. Temo ver caírem as minhas mãos. Inexplicavelmente, tanta mudança se produzindo ao mesmo tempo não me lança direto para o estado nervoso ao qual eu pensava que seria lançado, ufa, ainda bem. Pois, se tremo de frio, não tremo de nervoso. Assim é como eu penso, pelo menos. Mas isso não me impede de temer ver caírem as minhas mãos, cada vez mais roxas, chacoalhando agora numa freqüência mensurável em hertz. E as bandejas, aonde terão ido parar? Henrieta, como que lendo os meus pensamentos, retira-as de debaixo de um carrinho de comida. Este, por sua vez, desaparece. Embora eu não seja de me espantar, bem, me custa admitir isso, mas me espanto, porque, de-sa-pa-rece! Entretanto o espanto não é nada comparado à dor que sinto ao levar repetidas bandejadas nas pernas, braços e demais membros do corpo que Henrieta tem o fôlego de atingir. Estou nu, aliás. E as bandejas, frias. E as minhas mãos, roxas. E Daiane, borbulhando. Sinto isso tudo confusamente, armado apenas do meu recém-(re?)descoberto sistema nervoso. Entre
ouvir a pancada e
adivinhar qual membro do corpo é o seu objeto, entre
beber um gole de Daiane e
perceber que bebi, mas tarde demais para evitar beber outra vez, lá vão uns bons minutos. Oras, penso, e aqui a bandeja retine nos ouvidos, se recuperei parcialmente o tato, bem pode ser que consiga finalmente me mexer, o mínimo que seja, o suficiente para espantar Henrieta daqui e talvez depois limpar essa sujeira. Só então sinto a bandejada daquele retinir. No entanto, não coloco o meu pensamento em prática, por pura preguiça, talvez, sim, por razões de comodidade chamemo-lo preguiça. Apenas faço notar que – mas não me levem tão a sério, nem me desacreditem de todo, dessa vez, me imaginando fora de mim, em algum lugar onde evidentemente
não estou –, conforme dito anteriormente, não sei se se trata, de fato, de preguiça
|
Terça-feira, Abril 29, 2008
[bolsos furados]
CLIX.
Eu vi, subindo a rua com a mão nos bolsos, furados aliás, e isto que eu vou contar me deixou muito nervoso, um homem falando engraçado. Ele tinha chifres, que escondia com o chapéu. Carregava o cabelo dentro do chapéu, o chapéu em cima da cabeça, a cabeça em cima dos ombros. O estranho da cabeça é que ela luzia, e mais forte a cada palavra. Eu não entendia as palavras que o homem dizia, já devo ter dito isso, digo de novo, eu não as entendia de todo, embora as reconhecesse como palavras da minha língua, o português, eu acho. E, à medida que subia, eu ia me irritando, me irritando, fiquei vermelho. Depois a minha cabeça inchou. Eu sou alérgico a abelhas, mas não julgava que palavras empoladas saindo sucessivamente de uma boca assim tão bem escovada, escondida sob dois bigodes, um de cada lado, o nariz em cima, pudessem me causar a mesma reação. E contudo, pensando bem, a reação era a mesma? Porquanto as abelhas não me irritavam, me mandavam direto para o hospital, numa atitude franca que eu julgo digna de louvores os mais zombeteiros. A cabeça do homem, enfim, ia luzindo cada vez mais, enquanto a minha avermelhava e inchava, chegando a atingir a forma e a cor de um balão. Como eu me senti avoado, apesar da raiva! E os meus olhos, engolfados pela superfície rubra, suspiraram em alívio, isso de não precisar mais olhar para a estrela em que se havia transformado a cabeça daquele homem que falava engraçado.
O homem com cabeça de estrela se aproximou de mim como quem se aproxima de um velho amigo. Eu estava na rua. Com as mãos nos bolsos, os bolsos furados. Ele também estava, o que deve ter lhe servido para fantasiar alguma intimidade entre nós. Que não existia, da minha parte. Eis o que se passou entre mim e o homem com relação a quem eu não me sentia absolutamente íntimo. Vou contar, e é com horror, um pouco de indignação, mas no fundo eu não estava fazendo nada, devo ter dado na vista, é o que dá ficar sem cigarros. Ele me viu. Ele me achou desocupado. Ele se aproximou, portanto. Uma lógica que eu não entendo, e no entanto aí está, há quem a adote. Sempre há quem adote alguma lógica que eu não entendo. Ele se aproximou, portanto. Um passo depois do outro. Eu estava agora sentado, agora em pé, com as mãos nos bolsos, fora dos bolsos, no cabelo, ajeitando o meu gorro, acarinhando um gato extraviado. Depois eu estava procurando um cigarro nos meus bolsos, freqüentemente eles escapam da minha carteira, quando eu compro uma carteira, ou então eu os compro soltos, com qualquer trocado que eu tenha encontrado nos meus bolsos, quando não há cigarros há trocados. Excepcionalmente hoje não havia nenhum. Sempre é modo de falar, as exceções, afinal, sempre acontecem. Encontrei algo no meu bolso que não a ausência de cigarros e trocados? Por certo que sim. Mas não vou tratar disso. Mesmo porque o homem já está perto demais, a sua cabeça latejando e faiscando nos meus olhos, me impedindo de pensar no objeto que eu encontrei no bolso e passará não identificado e carrego agora nas mãos, qualquer que seja ele. É um objeto importante à história, isso eu não vou negar. Mas não é por pirraça que eu não o descrevo, vocês precisam entender, eu não sei mesmo. Bem. Com o objeto, portanto, eu tracei dois desenhos no ar, à altura de onde deviam ficar os olhos do homem com cabeça de estrela, e chamei-os de olhos. Pegue estes olhos, eu disse, e vista-os imediatamente, pois o senhor assim me dá nos nervos. Dito e feito. A estrela com olhos ficava menos assustadora. Eu ainda não a podia chamar de uma cabeça propriamente dita, mas, na verdade, o que são cabeças propriamente ditas? Menos que estrelas, decerto. Daí que, se eu estivesse realmente preocupado com que o homem tivesse uma cabeça, teria de me confessar um imbecil completo. Como eu já disse, o único motivo porque eu lhe entreguei os olhos é porque ele, sem eles, me dava nos nervos. Foi uma má ação, talvez? Tanto pior. Ele tampouco ligou. Continuou brilhando com a mesma força de antes.
Mãos nos bolsos, eu me aproximei do homem com cabeça de estrela. Dentro dos bolsos buracos, enquanto fora todo o resto do mundo. Decidi então tirar as mãos dos bolsos, para ver se tocava com elas todo o resto do mundo. Em vão. Me aborreci. Olhei de novo para aquela cabeça brilhando, aborrecido, querendo apagá-la. Não havia hidrantes por perto. E nem eu carregava balde ou mangueira alguma. Era uma impossibilidade dupla. Com o quê, julgando que estava muito melhor antes com as mãos nos bolsos, conquanto estes furados, me aborreci duplamente. Ora, e eu me aproximara do homem para fazer o quê? Seria terrivelmente arbitrário ficar ali parado, enquanto ele luzia, sem dizer nada! Porque eu não tinha nada para dizer, e mesmo que tivesse, eu raramente digo, pois isso aborrece as pessoas. Não obstante, me vi obrigado a me forçar a falar, a me arranjar, quanto ao que dizer, com o que tinha ouvido até então. Estava já ficando sem jeito, o silêncio opressor na atmosfera úmida e escura etc. Passei rapidamente frases que ouvira da boca dos outros na cabeça, em revista como se diz, procurando o dito de abertura de conversas mais agradável dentre todos. Ele me deixava feliz, o homem, brilhando, seria uma indelicadeza da minha parte decepcioná-lo. Se quisera apagar a sua cabeça, fora por impulso, melhor eu não saberia explicar. Eu estava aborrecido então. Talvez tivesse sido para ver o que havia dentro. E talvez me decepcionasse ainda mais do que tinha me decepcionado caso tivesse conseguido apagá-lo, constatando que, bem, dentro não há nada. Talvez, em outras palavras, a cabeça fosse a luz, e não algum objeto que luzia como uma estrela. Aproximei o meu dedo de onde devia estar a boca, indicador em riste, mas creio que o que eu toquei não foi a boca. Senti uma coisa, arrepios, e puxei a mão de volta junto ao corpo. Logo ajeitei a outra mão, a que havia ficado livre, da mesma maneira, assumindo assim posição de sentido, e comecei a rir por isso. Lembrei-me então de que devia, se quisesse deixá-lo feliz, dizer a amabilidade que tanto procurara, e procurara, e procurara, mas tanto, que acabara encontrando-a na minha cabeça, para depois esquecer, e tornar a lembrar neste momento, embora não o seu conteúdo mas sim a forma. Era uma frase de três palavras, duas curtas e uma longa. A abertura ou arredondamento das vogais, isso eu tampouco lembrava. Fiz mais esforço. Não consegui. Então, não dando com nada melhor, disse: Como vai, barbitúrico?, e Que tal, paralelepípedo?, e Não se exacerbe!, e Por favor, passarinho...
Era um dia quente de primavera. Os pássaros cantavam. As sirenes tocavam. Os gatos miavam. Eu andava na rua. O homem com cabeça de estrela também. Que rua? Que estrela? Que eu? Impossível dizer. Que primavera? Bem, era um ano bissexto, a primavera portanto... O que tem mesmo a primavera, nos anos bissextos? É mais longa ou mais curta? O que é dizer, É menos curta ou menos longa? Pode-se dizer a frase de outras maneiras também, a saber: É menos curta ou mais longa?, e É mais curta ou menos longa?, ou É menos longa ou mais curta?, ou É mais curta ou menos longa? Creio ter esgotado as possibilidades. Pois bem, nesta primavera bissexta, eu tinha as mãos nos bolsos. Esqueçamos por ora as conseqüências daquele diazinho a mais de fevereiro. Esqueçamo-lo para sempre. Porque o que me interessava agora era, eu tinha mãos, e tinha bolsos, e estes abarcavam
fisicamente aquelas, segundo a minha vontade. Porque eu
queria ter as mãos nos bolsos. Pouco se me dá se fazia calor, era primavera e, posto o livre arbítrio, uma estação para escolher. Eu
escolhia levar as mãos nos bolsos enquanto caminhava na rua, subindo-a. Tropecei e rasguei os fundilhos contra um pedregulho. As sirenes continuavam a tocar, o que me fazia pensar nelas. Quando se afastavam, eu parava de pensar nelas. Pois era primavera, e havia mais no que pensar que em sirenes. A associação de idéias me levaria ultimamente à morte, isso eu bem sabia. Portanto eu
fiz questão de deixar de escutar as sirenes, voltando os meus olhos, e por conseguinte o meu pensamento, para o senhor com cabeça de estrela. Eu subia a rua, ele a descia. Eu andava para frente, ele também. Eu caíra, ele não. Bem, o que nos separava, além disso? O que nos distinguia, diferenciava, separava, apartava psico e fisiologicamente, tornando um um não-outro e o outro um não-um? A minha cabeça, que não brilhava como a dele, é óbvio. O que é dizer, A cabeça dele, que não negrejava como a minha, é óbvio. Pois a minha cabeça, além de não brilhar, negrejava. Como um buraco negro. E assim eu a sentia, ou melhor, não a sentia, como um buraco negro. Com que órgãos auditivos, então, escutara as sirenes, com que cérebro pensara em tudo que pensara anteriormente? Ora, isso será impossível verificar, porquanto eu não mais pensava. Sentir-me como um buraco negro eu tampouco direi que me sentia, já que buracos negros não sentem. E sobre o meu encontro com o homem de cabeça de estrela, iminente quando do enegrecimento da minha cabeça, poderei dizer apenas aquilo que se pode deduzir das informações constantes antes do enegrecimento da minha cabeça, isto é, que nos encontramos, ocasionalmente, a crer que continuei a andar. Com que boca o digo? Não a minha. Ignoro as demais circunstâncias.
Fazia noite. Densa. De forma que eu não enxergava. Andava na rua, entretanto, guiado pela cabeça brilhante de um homem. Ele parecia se aproximar. Ou era eu que me aproximava dele, por sua vez estático, não sei, visto que eu não tinha pontos de referência de que me valer para constatar o fato com certeza. Eu não parei de andar, isso teria ajudado, mas não pensei em parar de andar. Não era o caso, eu estava atrasado. E era grato ao homem-guia, de quem eu parecia me aproximar cada vez mais. Ao seu redor fazia igualmente escuro, de forma que eu não via o meu caminho, senão o ponto luminoso ao qual devia chegar. O seu corpo parecia ser a única coisa que a cabeça iluminava. Fiando-me em que devia ser um homem bondoso como qualquer outro, naquela época eu era ingênuo, eu me sentia grato ao homem. Levei a mão aos bolsos, pensando em acender um cigarro. Pensei que não tinha cigarros. E de fato não tinha, como pude verificar. Então me agachei, coloquei as mãos no asfalto áspero, tateando por alguma bituca qualquer. Encontrei vários objetos que me apressei em levar ao bolso – primeiro um, depois outro, e outro. Assim enchi os meus bolsos todos, muitos, de objetos cujo formato, textura e tamanho me lembravam, às apalpadelas, os de uma bituca de cigarro. Estas são a principal causa de poluição das nossas praias, aliás. E eu estava na praia, percorrendo uma rua à beira mar. Escutava as ondas. De forma que me sujei inteiro de areia no processo de apanhar as supostas bitucas, e além disso, para o meu pesar, colhi muitas conchas em formato cilíndrico, cuja existência até então eu ignorara. Bem, se não conseguira uma bituca, pelo menos aprendera alguma coisa. E não era certo que eu não havia conseguido, oh não, faltava verificar. Como o homem com a cabeça brilhante, apesar de parecer se aproximar, não o fazia com certeza, não me iluminando nem um pouco mais, nem um pouco menos à medida que eu avançava, o único método que eu encontrei para testar os meus achados à beira mar foi colocá-los na boca e tentar acendê-los. Coloquei, portanto, todos os objetos na boca. Muita areia entrou, eu me engasguei. Tive de retirá-los, cuspir, cuspir, engolir um pouco, depois voltei a colocá-los na boca. Mas eu não tinha fósforos, e tampouco isqueiros! Oh, isso já era talvez demais. Olhei para a lua, ergui o meu pulso e me chacoalhei inteiro. Cuspi os objetos todos à beira mar. O homem continuava com a cabeça brilhando à distância, não iluminando nada, nada além do próprio corpo. Eu gritei, Você tem um isqueiro? Ele apontou para a própria cabeça, como que dizendo, Eu sou um isqueiro. Você tem cigarros?, eu gritei. Ele apontou para a cabeça, como que dizendo, Eu sou um isqueiro. Isso não me ajudava. Tornei a me agachar, então, com o fim de apanhar os objetos que havia cuspido, na esperança de, uma vez alcançado o homem, poder acendê-los na sua cabeça. Mas não os encontrei. Levantei-me e praguejei outra vez contra a lua. Depois, dizendo a mim mesmo que fumar era um hábito ruim e desnecessário, apertei o passo. Pisei na água, era água do mar. Escondi as mãos nos bolsos furados.
O homem com cabeça de estrela guardava com relação a mim alguma relação próxima de parentesco, e isso era tudo que eu sabia sobre ele. Eu tivera pai? Pelo que lembro, sim. Eu tivera irmãos? Ah, isso era pedir demais. Nós estávamos conversando em frente à lareira da minha casa. Com palavras vagas, uma vez que eu não sabia com quem conversava exatamente. Mencionei a estrela e o fato inesperado de que ela estivesse sobre o seu pescoço, onde a maior parte das pessoas carrega outras coisas. Não que eu o estivesse repreendendo, o respeito que eu tinha para com ele não me permitiria tanto, não. Antes era um elogio. Era uma bonita estrela, afinal, e a idéia uma muito original. Ele desatarrachou a estrela do pescoço, revelando, por baixo do que se verificou ser, afinal, uma máscara, um rosto maligno. Este rosto maligno, eu o conhecia. Guardava com ele alguma relação próxima de parentesco. Lembrava o meu próprio rosto, embora eu tenha puxado mais o lado da minha mãe neste quesito, ainda bem. Mas não o mencionei, senão elogiei as suas feições grotescas, afinal, a-afinal poucos rostos transmitem tanto significado, poucos rostos, embora bonitos, são tão ú-únicos. Meti a mão nos bolsos, jurando silenciosamente fazer silêncio daqui para frente. Entretanto ele desatarrachou o novo rosto feio da cabeça a que estava preso, revelando por trás do que afinal pude verificar ser apenas outra máscara um rosto... Um rosto? Era mais uma cara, um longo focinho puxando mais para a esquerda, um dente brotando da testa feito o corno de um unicórnio. Apegando-me ao meu juramento silencioso, fingi não notar a mudança. Tomei o braseiro que descansava perto do fogo nas mãos, fiz menção de começar a me abanar. Contudo abanei na direção errada, na direção do homem, cuja cabeça se destacou, voou como uma folha, revelando por baixo de si, justamente!, uma bola luminosa. A estrela originária, o meu parente próximo. Sorri satisfeito. Tirei as mãos dos bolsos para cumprimentá-lo pelo truque bem feito. A essa altura, já nem pensava mais em continuar disfarçando pateticamente o meu esquecimento. Estava decidido a perguntar pelo que queria saber, e assim o faria uma vez tivesse dado jeito de contornar moralmente o juramento silencioso que fizera. Mas não consegui dar jeito nenhum.
Eu tirei uma foto. Estava na vitrine de um restaurante em Paris, esperando a comida. Mirei a câmera digital na rua lá fora, uma ruela que desemboca na Place da La République, e apertei o botão. Olhei para o visor. Um homem com cabeça de estrela. Me senti um pouco esquisito. Queria correr para fora da porta, perseguir o homem, perguntar o que é que estava acontecendo. Mas não podia, porque, bem, a comida não tinha chegado. Esperei pela comida, então. Comi. Saí. Como estava muito frio, coloquei as mãos nos bolsos do meu casaco. Eles estavam furados. Coloquei então as mãos nos bolsos das calças. Eles também estavam furados. Desapontado com isso, e ainda mais com a presumida longa distância que o homem devia ter percorrido com a sua cabeça de estrela enquanto eu esperava a minha comida e depois a comia, eu sentei num banco e acendi um cigarro. Fumei o cigarro. A polícia apareceu, me botou dentro do carro. Como eles falavam rápido demais, demorei a entender que havia saído do restaurante sem pagar a conta. A punição para isso seria vestir uma máscara de gorila especialmente ridícula. Bem, o que fazer? Vesti a máscara. No dia seguinte, em outro restaurante, fui expulso. Parecia ser que a máscara era um aviso para os donos dos restaurantes, para que eles não servissem quem as vestia. Bem. Eu argumentei com o dono deste, mencionando de passagem o homem com a cabeça de estrela. Ele entendeu, mas não podia me servir de todo modo, por razões que eu falhei em entender completamente. E agora aqui estou eu, faminto, quando vejo o homem com a cabeça de estrela passar pela minha frente. Eu me jogo na direção dele. Ele grita e sai correndo. Eu começo a me acreditar um gorila. Com o tempo, me esqueço da minha própria identidade e fujo para a Argélia. Lá eles me tratam com carinho, com respeito, com amor quase verdadeiro, tão verdadeiro quanto pode ser o amor com relação a animais, e eu sou feliz.
|
Terça-feira, Abril 22, 2008
[o ativista ambiental]
CLVIII.
O meu amigo morreu. Eu não saberia dizer por quê. Passamos o verão inteiro ao pé da árvore, pulsos atados o meu direito ao dele esquerdo por uma corrente, ou uma corda. E o meu amigo, que no começo dava sinais de entusiasmo ainda maiores que os meus (eu sou um entusiasta), morreu. Julgo qualquer análise que se proponha a desvendar o fato prematura. Esperemos o cadáver esfriar, e ademais o fato é um fato. E agora eu não sabia o que fazer. Se ficasse aqui, perigava ser apanhado pelos cachorros. E o que é pior, morto. Pois os cachorros matavam. Embora eu nunca os tivesse visto, estava a par de sua existência, e o seu silêncio hostil não deixava dúvidas. Conversáramos sobre isso certa ocasião. Evidente que estes assuntos agora não mais preocupavam o meu amigo, o que não é dizer, e tudo que foi dito até o momento servirá como prova disto, que eu não me preocupava. Eu me preocupava. A corda era muito grossa, impossível cerrá-la, já havíamos tentado, no começo da nossa estada. Dispúnhamo-nos ao redor do tronco segundo descreverei, um de um lado, um do outro, o tronco no meio. Anteriormente havíamos colocado cada um um pé contra o seu respectivo lado do tronco e feito força no sentido contrário dele, do tronco. Buscávamos assim a liberdade. Não relativa à árvore, a qual pelo contrário queríamos proteger, de quê?, do mal, que mal?, o Mal, qual é o seu nome? Progresso talvez, mas relativa a nós mesmos. Queríamos nos desvencilhar um do outro. Mas não obtivemos êxito. Mas não nos desesperáramos, pois estávamos vivos. E a morte do meu amigo mudou a maneira como eu me representava a situação no sentido de que ele passou a estar morto. O caso era que, se não havíamos conseguido escapar vivos, muito menos mortos conseguiríamos, assim era que eu pensava. Se pelo contrário se tratava de corrente, o que não conseguia verificar e portanto não direi se sim ou se não, bem, aí estava. Nunca, durante os primeiros meses da nossa estada, pensáramos em tal possibilidade. Porque, se corrente, quanto a escapar, ninguém nunca o conseguiria sem os instrumentos necessários, os quais eu desconheço, e certamente o mesmo pode ser dito sobre o meu amigo, porque éramos ambos até então trabalhadores do intelecto e não nos dávamos com objetos verificáveis pelos sentidos. Eles nos machucavam, no mais das vezes. Poderíamos certamente ter interpelado um dos passantes, isso seria fácil. Estávamos numa rua muito movimentada. Mas não tivemos esta idéia enquanto o meu amigo vivia, e agora, por alguma razão, eu não me sentia inclinado a colocá-la em prática. Não que as minhas costas não doessem. As provisões haviam acabado. Comêramos demais durante os primeiros meses, e agora me eram impostas as conseqüências, a saber passar fome e fraqueza, não dormir direito, sentir fortes dores abdominais, não obstante a vontade de comer, e tonturas esporádicas, seguidas de vômitos, de quê eu não sei, pois dentro não havia nada. Tudo feito um indigente. Mas principalmente suportar pesada a consciência de ter comido demais e estar sofrendo do desenrolar de um fato imerso no qual as provisões haviam me causado prazer. Pois eu sentira prazer comendo as provisões, e elas acabaram. Não todas, certamente. Mas as que restavam, eu não sabia como preparar. E nem estava certo de que alguma que restava fosse comestível, decidir sobre tais assuntos estava além, muito além da minha capacidade. No começo do verão estávamos entusiasmados. Eu pegara as minhas coisas, colocara-as dentro de uma caixa, encontrara o meu amigo carregando a sua caixa que por sua vez carregava as suas coisas, juntos paramos no meio da avenida verdejante e começamos a pensar em algo. Algo que simplesmente não estava certo. Sentamo-nos na calçada. Algo não estava certo, nós dois sabíamos disso, ele tão bem quanto eu, se não melhor, o meu amigo sempre foi de um grupo de dois o mais esperto. No entanto há questões sobre as quais, de simples, o entendimento chega de uma vez só e integralmente. Julgo ser esta uma delas, talvez. Certo é que havia um problema. No qual nem um nem outro se atrevia a abrir a boca para tocar com palavras imprecisas. Éramos da opinião, segundo me recordo de uma conversa que tivéramos em tempos imemoriais, que as palavras devem amadurecer antes de serem proferidas, e de que, na mesma proporção disso, cabe-nos, a nós os amigos, proferi-las apenas no momento exato, pelo qual, reitero, cumpre esperar. E portanto esperávamos. Sabíamos o quê, e como alcançá-lo, se assim desejássemos, mas não o desejávamos. Não antes de tê-lo saboreado completamente. E achado bom. E por enquanto saboreávamos o motivo da nossa espera, cada um com o seu cérebro, mas o gosto não estava exatamente como desejaríamos como estivesse, razão porque não o comunicávamos, o motivo. Antes procurávamos amadurecê-lo. Com a força do pensamento, acredito, é possível amadurecer os mais estranhos frutos. Este era o começo do verão, quando ainda tínhamos as nossas provisões intactas, os nossos braços livres para carregá-las. As provisões, desnecessário dizer, estragavam enquanto sentávamos. Porque sempre estragam no decorrer do tempo, e sentar-se é uma atividade consumidora de tempo, como todas as outras. Sendo assim, imagine-se o quanto não estragavam enquanto pensávamos? Muito. Tanto que, quando constatamos numa frase precisa e proferida simultaneamente de ambas as bocas o problema que procurávamos amadurecer, mais ou menos metade delas já estava podre nas caixas. Agora um novo problema surgia, eu vou dizer qual. Que não sabíamos se ficávamos felizes por ter descoberto a raiz do primeiro problema, a saber, que duas caixas de provisões, em vez de uma maior, seriam talvez desnecessárias e até prejudiciais aos fins que nos propúnhamos ao carregá-las, ou se ficávamos tristes com o surgimento do segundo problema, a saber, que metade das provisões contidas nas caixas havia perecido. Cumpre lembrar que eram dois problemas imersos no tempo, como todo o resto, este superveniente e depois concomitante àquele. Portanto outrora passivo de ser evitado. Não o fora, entretanto, como poderíamos ter constatado, se quiséssemos. Mas este novo impasse, de não saber sob qual estado anímico devíamos agora nos considerar oprimidos, tampouco o dissemos imediatamente em voz alta. Não, seria fácil demais. A situação se degenerara ainda mais um pouco, é certo. Mas em quê? Ainda não sabíamos. Assim, continuamos sentados. Pessoas passavam sem parar, das quais só se viam os pés. Via-se também uma árvore. De fato, sentáramos ao pé da árvore. Foi provavelmente o nosso erro, embora seja difícil falar em erro, que eles inibem a concentração e dentro em pouco já não se sabe mais do que é que se fala. Os cachorros permaneciam silenciosos, ainda não nos déramos por eles. Isso só viria a acontecer muito mais tarde, quando as sutilezas dos nossos sentidos havia muito atrofiados começaram a despertar. Ver os pés, com efeito, foi o primeiro sinal dos cachorros que tive. Creio poder dizer isso, a explicação segue. Talvez exatamente por ser menos esperto que o meu amigo, eu fui o primeiro a ver os pés. Para não ficar atrás, entretanto, o meu amigo viu os cachorros. Informamo-nos mutuamente. E o engraçado é que, veja-se como é a natureza humana, nenhum acreditou no outro, nem eu, nele, nem ele, em mim. Por mais que eu apontasse os pés (dos outros), que a mim pareciam evidentes, passando muito rente às nossas cabeças e às vezes até fazendo vento, ele não os enxergava, ou fingia não enxergar, ou acreditava não enxergar. E o mesmo mas com relação a mim ele poderia dizer ter feito a respeito dos cachorros, isto é apontá-los em vão, argumentar o cheiro, acreditar-me sonso. Mas ele morreu. Talvez seja em sua memória que eu acredito nos cachorros. Porque até hoje não os vi. Mas sinto medo, e isso deve querer significar alguma coisa. No entanto, se aquilo for algo que, afinal, depois de muito tempo amadurecendo, constate-se não se poder dizer sem um grau elevado de certeza, talvez o melhor tivesse sido ficar calado a respeito do assunto. Que há outros a tratar, mais urgentes, assim me parece. Por exemplo, o impasse das provisões apodrecidas na caixa. O melhor, constatamos a propósito alguns dias depois de sentados, será não ficarmos nem felizes, nem tristes. Porque, se a felicidade adviria da constatação do problema das caixas, ao qual daríamos termo imediato, pois isso nos era agora possível, não menos certo era que a tristeza adviria do surgimento da podridão
dentro das caixas. Ora, considerando-se que tristeza e felicidade são dois pólos do mesmo bastão, não resultava isso em nada? Não seria a apatia a atitude correta a tomar, dada a conjuntura? Por certo que sim. E colocamo-la logo em prática, permanecendo sentados. Agora não tínhamos vontade de dar cabo ao problema das caixas, muito menos de jogar as frutas podres fora. Alguém na rua poderia pisar em uma delas, eu raciocinava em segredo, o que desequilibraria certamente a apatia para algum lado. O meu amigo concordou, silencioso. O fato não me assustou. A telepatia não é uma possibilidade completamente descartável. Mas não podemos nos deixar conduzir pela pseudociência em hipótese alguma, razão porque a observei com desconfiança. Muitos poderiam ser os motivos que levavam o meu amigo a mexer a cabeça, afinal. No entanto, não me atrevi a questioná-lo quanto a este ponto, temeroso de perder o já mencionado equilíbrio. E sem mais, percebi-nos, comecei a nos perceber atados. Foi uma certeza que demorou a se estabelecer como tal no meu espírito, mas o fez, quando fez, com a força de uma certeza. Começou então como uma leve desconfiança. Não, não tanto, como uma dúvida. Será que estamos atados?, eu me perguntei. Passei dias a refletir no assunto, a procurar respostas. Durante os quais comi algumas das últimas provisões que restavam, as ainda não podres. Não, não dei ao meu amigo parte da minha dúvida, não saberia como justificá-la perante ele, que se encontrava de espírito alhures, talvez observando os seus cães. De resto, ela era inteira minha. Procurei antes estabelecer métodos lógicos de verificação das respostas possíveis, chamadas a partir de agora Hipóteses. O assunto nunca fora tratado por nenhum estudioso cuja obra eu conhecesse, o que me causou pesar, por um segundo, durante o qual o bastão dos nossos humores, se não pesou para o lado da melancolia, tinha a sua existência colocada por sua vez em dúvida. E eu senti os efeitos dessa dúvida tornando-me de fato melancólico, à medida que o meu amigo parecia se tornar alegre, não sei por que razão, mas o que me fazia querer acreditar mais uma vez na teoria do bastão anímico, agora imaginando-o um bastão compartilhado, mais algo como uma gangorra anímica mesmo, em que, de um lado, eu me sentava, e do outro, o meu amigo. A árvore talvez fosse uma representação do arquétipo do bastão? Porque era da mesma maneira que estávamos dispostos ao seu redor, eu já mencionei isso. Bem. Isso era uma Hipótese. Que me fez lembrar da outra, a de que estávamos acorrentados. Agora, no entanto, uma circunstância somava-se à conjetura original. Tentarei colocá-la em palavras, que estávamos acorrentados ou meramente atados o meu pulso direito ao esquerdo dele, ora, bem, não é que consegui. Mas isso eu já o conseguira anteriormente. Não nos alonguemos sobre. Esta nova Hipótese, eu tampouco sabia de onde surgira. Parecia mais apurada, entretanto, como eu podia constatar irracionalmente. E sentia uma dor, uma dor no meu pulso direito, que me levou, certa ocasião, depois de muitos dias, a olhar para ele, o pulso. Havia nele algo de estranho, que requeria observação mais prolongada. À qual me apliquei tomando o cuidado de não tirar conclusões precipitadas. De não olhar para os lados. De não me mover. Os pés, eu os escutava zunindo, de tempos em tempos, muito rente à orelha. Mas quando me dava conta, já tinham ido embora. Observava o meu pulso. A primeira conclusão a que cheguei, fora a de que havia nele algo de errado, algo de muito errado, era de que esse erro era exterior, isto é, exterior como oposto a interior, mais obje que subjetivo. As palavras não são tão flexíveis assim. Mas a minha mente sim, e eu me entendia. Tratava-se, o problema com o meu pulso, de um problema advindo à minha revelia, talvez à do meu amigo também, talvez não. Podia ter sido provocado por ele, afinal. O que me colocava de sobreaviso. Porque o chamo de amigo por comodidade, mas o fato é que, bem, não nos conhecíamos. Não mais do que dois estranhos carregando caixas. E nesse estágio do nosso relacionamento, eu não saberia dizer por quê, embora desconfie, havíamos nos entregado simultaneamente à nossa aventura. Éramos amigos na medida em que o são duas pessoas que compartilham o mesmo problema, ou seja, sentar-se na rua, ao redor de uma árvore, carregando caixas, e ver-se atado. E de repente, eu percebi que o mesmo erro que se impunha ao meu pulso, ele também se impunha ao pulso deste semidesconhecido. Foi intuitivo. Pude comprová-lo facilmente através do mesmo método empregado na verificação do erro no meu próprio pulso, a saber olhando. E este dito erro era uma pulseira da qual saía uma corda ou uma corrente. Que satisfação! Pois agora, se me sabia ou desconfiava atado, igualmente me sabia ou desconfiava atado
a alguma coisa, como se deve. E mais uma vez pude obter alguma prova, embora não definitiva, da teoria da gangorra, porquanto o meu amigo, ao perceber o olhar que eu dirigia ao seu pulso, olhou para o mesmo, e se entristeceu. O quê? Duas Hipóteses se desenvolvendo simultaneamente, trotando na direção da certeza, sem que eu pedisse, assim? Realmente o universo talvez tenha alguma ordem, aja segundo algum princípio! Com o quê, pensando sobre, a minha satisfação redobrou. No entanto a apatia sobreviria rapidamente, sem que eu suspeitasse, resultante da fome. Eu já a sentia havia algum tempo, as provisões, quando do referido desenvolvimento das Hipóteses, já estavam pelo fim. Passáramos parcimoniosos dias já então, e eu previa, confusamente, a parcimônia ainda maior que estava por vir. Não desconfiava contudo que fosse fatal. Ainda hoje não creio que o meu dito amigo tenha morrido de fome. Arrisco aqui duas outras Hipóteses, levianamente. Uma, descrente dos pés, o meu amigo se descuidou deles. Os que me zuniam ao ouvido, nele, pude verificar mais de uma vez, acertavam em cheio, no estômago, às vezes, às vezes bem no meio da cara. Eu o alertava. Ele não acreditava. Eu tornava a alertá-lo. Ele não acreditava. E recebia mais um pontapé. Duas, medo dos cachorros. Pois não sangrou, quando morreu. Hemorragia interna, argumentarão, com excesso de lógica. Eu o argumento. Não vi os cachorros até hoje, se bem que não mexi a cabeça mais do que quarenta e cinco graus para ambos os lados, e apenas quando absolutamente necessário, por questões, digamos, vitais. Outros motivos poderiam se mencionar, para a morte dele, mas eu não tenho vontade. Eu tenho fome. Isso exclui a vontade. E, por último, será necessário dizer que a corda, ou corrente, pela qual nos encontrávamos atados, continua aqui? Me prendendo o pulso, fazendo doer, lançando dúvidas? Creio que não. É das coisas que se supõem óbvias, e o óbvio não se pronuncia, a não ser que aconteça o que aconteceu. Um outro dia eu acordei, não me sentia mais atado, não me sentia mais sentado ao pé da árvore com o cadáver do meu amigo. Pronunciei então o óbvio. Passou, passou, como era de se esperar. Tive dúvidas a respeito disso outras vezes, elas me acorrem muito ultimamente, oras eu estou faminto. Nem todas as vezes consigo escapar aos pés. As minhas pernas estão adormecidas. Situação em que o indivíduo alucina, certamente, e isso há de ser levado em consideração. A gangorra anímica está livre do peso de um dos pólos, não é nada imprevisível que eu me afunde aqui embaixo. Agora, no entanto, sozinho, não sinto mais a satisfação de constatar as coisas que constatava antigamente, ao lado do meu amigo. Não por não constatá-las, isso não, sempre as há, as coisas a constatar, e não me escapam nem me escaparão enquanto eu tiver olhos. O fato é que perdi o prazer. Fato que, ademais, ajuda a corroborar a minha teoria. Quando o meu amigo morreu o verão acabou, literal e poeticamente. Mas eu não considero que uma coisa se relacione à outra, porque, o que é mesmo se relacionar, e o que é uma coisa, e quando a coisa com a qual eu me relaciono vai se relacionar com o final de si mesma, me livrando assim de fazê-la se relacionar à força de deduções deduzidas de fatos que se relacionam com outras coisas, as quais eu não conheço, nem quero conhecer, nem quero querer conhecer? Quando, enfim, será possível dizer, dizer simplesmente, Eu não sei? Sem que isto signifique nada. Eu não sei. Estou aqui, sentado, isto me basta. Não acredito mais de todo nos cachorros, e começo a me inclinar pela inexistência da minha própria teoria. Evidentemente não me atreverei a emitir declarações ditas definitivas antes que me tragam um prato de comida, quando poderei, digo a partir do momento em que poderei, ou depois do quê, começando aí poderei pensar talvez com mais clareza. Certo é que, e apenas isto, a árvore continua em pé. E eu ao pé da árvore.
|
Segunda-feira, Abril 21, 2008
[Sandra, gostosa e mentecapta]
CLVII.
Eu fora abandonado pelo helicóptero de RH da minha empresa numa ilha deserta, a fim de conduzir as mesmas pesquisas de sempre, apertar aqui e ali o ramo de uma ou outra árvore, anotar tudo no meu caderninho. Ao longe eu avistei Sandra. “Oi,” eu disse. Éramos os únicos no lugar, não havia razão para que ela se recusasse a falar comigo.
“Oi?” Ela disse.
“Oi,” eu disse.
“Oi?” Ela disse.
“Oi,” eu disse, “eu estou sozinho, você está sozinha, estamos numa ilha deserta, estamos com fome, sujos, há dias não vemos ninguém e é uma sorte termos nos encontrado. Você quer um suco?”
“Oi?” Ela disse.
“Um suco?” Eu insisti.
“Um suco?” Ela insistiu.
“Sim, sabe, nesta ilha deserta em que estamos os dois sujos, famintos e há vários dias há várias frutas, dentre elas a laranja, com cujo caldo se faz, na minha opinião, o mais delicioso dos sucos. Caso laranjas não lhe agradem, há também o vinhedo, dentro do vulcão, um vinhedo estranho, as suas folhas são do tamanho de crianças pequenas. Não há aqui crianças com as quais compará-las, mas eu lhe garanto, você pode confiar em mim, aceitar, aceitar é a coisa certa a fazer posto estamos numa ilha e agora somos amigos, melhores amigos, nesta ilha deserta. Você quer um suco?”
Ela aceitou, ou então não aceitou – o fato é que mexeu a cabeça. Mais tarde bebemos o suco. Fomos resgatados por um homem rico numa lancha e voltamos para a cidade. Os seus hábitos selvagens foram pouco a pouco se transformando em outra espécie de hábitos selvagens: agora ela tomava banho embaixo do chuveiro, nua, e nua andava pela casa, não-depilada, sentindo-se, ao contrário de mim, totalmente à vontade; agora ela grunhia baixinho, claramente, sofisticadamente. Instrui-a nas maneiras dos homens: comprei-lhe sutiãs (Sandra não tinha como nem via por que trabalhar), comprei-lhe meias, comprei-lhe calcinhas e blusas e calças de veludo estampadas com animaizinhos que lhe lembravam a ilha e a faziam sentir-se mais à vontade. Outro aspecto em que logrei melhorá-la foi o musical: escondi a harpa que, na ilha, ela tocava, acompanhada por um coro de animaizinhos silvestres, e entreguei-lhe uma harmônica, o instrumento certo para quem almeja ascender socialmente feito louco. De início, percebi que ela se sentia confusa. Batia os dedos nas aberturas; o único som que saía era abafadinho, miserável, a custo audível. Com muita prática, entretanto, Sandra chegou a reproduzir na harmônica, dedilhando-a, técnica aliás originalíssima e portanto em algum grau digna de mérito, todas as terríveis melodias que concebera na ilha.
*
Eu me aproximara do fogo. Sandra vinha contornando o chalé, seguida do seu Séquito Silvestre. Harpa à mão, sorriso estampado, boca bem aberta. Terror escorrendo da boca. Eu entrara no chalé pela janela, fingindo que não a havia percebido ainda; mas não adiantara, a música se infiltrava pela madeira, pelo buraco da chaminé. Quando me dei conta de que o chalé não devia estar lá, cerrei bem os dentes; mas não sei, Sandra alcançava naquele exato momento o clímax da sua obra menos acabada, pode ter sido uma coincidência. O Séquito Silvestre, supostamente inocente posto Silvestre, acumulara-se nas janelas; entredentes salientes os esquilos assoviavam harmonias imaginárias, sorrindo.
"Parem," eu disse, "parem, parem!"
"Hic, hic, hic!" Eles responderam, sorrindo.
Ateei fogo ao chalé comigo dentro, sem pensar no que estava fazendo, naquela época eu estava um pouco fora de mim. Foi quando Sandra percebeu que havia ido longe demais. Parou imediatamente de cantar; na sua selvageria tonta, entrou arrombando a porta, correu comigo embaixo do braço até lá fora. Eu estava imensamente bravo com ela por não ter me deixado queimar.
"Obrigado," eu disse.
"Obrigado?" Ela disse.
"Obrigado," eu disse, "é o que se diz quando alguém salva a sua vida, lá de onde eu venho, e salvar a minha vida é o que você acaba de fazer." Para ilustrar o que dissera, rabisquei na areia com um ramo de oliveira um chimpanzé abraçado a outro chimpanzé, os dois felizes, e escrevi OBRIGADO em cima. Uma onda veio e apagou o meu desenho; Sandra se meteu a chorar. Cutuquei-a com o ramo de oliveira logo abaixo do umbigo, o que pareceu fazê-la feliz. Seria uma noite memorável. Mas durante a madrugada, um nos braços do outro, escutamos o som da lava tostando o Séquito Silvestre, e tivemos de correr em direção ao mar.
Pela manhã achamos fósseis recém-fabricados espalhados por toda a extensão da areia enegrecida.
*
No meu apartamento, Sandra meteu a cabeça para fora da janela e começou a gritar para a lua, como fazia na ilha quando subia ao topo do penhasco, cuja altura relativa ao vale, eu imagino, se equipara à do nono andar. Com um sorriso, sentado ao pé da lareira, eu viro a página do meu livro, tomo um gole do meu uísque, espero paternalmente a minha barba crescer. As coisas iam bem para mim, eu me sentia no meu elemento aqui na cidade; trabalhava como um cavalo, comia como um porco, dormia como uma pedra e, depois do banho, cheirava a frutas cítricas. O oposto, entretanto, acontecia com Sandra. Ela parecia não se adaptar. Ao me ver entrar pela porta virava a cara, empinava o nariz, balançava voluptuosamente os quadris. Ou então, em dias felizes, pulava sobre o meu peito, hálito pútrido me lambia o rosto, roçava as suas coxas contra as minhas. O seu cheiro piorara muito, lembrava carburadores, máquinas enguiçadas, e eu me perguntava o que ela andara comendo na minha ausência, ou por onde ela andara andando, e com quem, e quais eram as suas intenções, se é que as tinha. Mas Sandra, ainda não tendo aprendido a falar, me olhava indiferente.
Um dia respondeu: “Suco?”
Outro dia respondeu: “Obrigado?”
Ainda outro dia respondeu: “Parem, parem, parem!” E riu Hic hic hic, feito um esquilo.
Havíamos trazido para cá todos os fósseis dos seus amiguinhos, os quais entulhavam o meu escritório, forçando-me a trabalhar na sala, o que, a bem dizer, não era trabalho, mas observar Sandra nua uivando pela janela. Ela parecia não se importar. Bem diferente de agora. Nas horas vagas sentava e olhava para a Bíblia, hábito aprendido de um jesuíta que freqüentara a sua cabana. Eu fechei o meu livro, olhei para a lua, abri o meu livro, fechei o meu livro, levei-a para a cama, acabamos exaustos e ternos um nos braços do outro, como sempre. Acordei de um pesadelo no meio da noite e me decidi a ministrar um curso de civilidade para Sandra a partir do dia seguinte.
*
Os fragmentos foram o assunto da primeira aula – meu erro, talvez, não sei. Ela não entendia o que eu dizia, a não ser uma ou outra palavra, uma frase repetida à exaustão, especialmente ordens curtas e objetivas como “Passe-me o tomate”, “Faça a barba”, “Tire as minhas roupas”. O inverno chegou; ensinei-lhe o que era, para que servia, a quantidade de tempo que durava, o que era o tempo, o que era durar, o que era o que, quantas vezes era preciso tomar banho por dia, e o que era um banho, e um dia, e quantas. Várias vezes ela demonstrou interesse pelo cigarro; estendia a mão na direção dos meus lábios, arredondava a boca e soprava. Ficava adorável. “Fumar é um hábito ruim”, eu disse. Acordei com o alarme de incêndio na manhã seguinte e corri para a sala, onde constatei, com horror, que Sandra bafejava o pé da minha poltrona de descanso. O meu método moderno me impediu de aplicar-lhe punição corporal; simplesmente dei meia-volta, abri a gaveta e joguei toda a sua loção hidratante no vaso sanitário.
Antes que eu puxasse a descarga, Sandra apareceu na porta. Olhou-me fixamente por alguns segundos, durante os quais eu permaneci imóvel, como que sentindo a iminência de algum evento importante. Mas nada aconteceu.
Na aula seguinte, ensinei-lhe o que era um vaso sanitário, o que eram jóias, e para que serviam ambas as coisas, o que fazer caso uma se misturasse à outra etc. Meu erro: Sandra, gostosa e mentecapta, entrou em greve de sexo com o objetivo de me fazer largar mão dos fragmentos. Não que a situação não fosse crítica. Se acossado, eu admito que era, embora não saiba ao certo a validade desta admissão. O problema era que eu não sabia como, nem por onde começar a largar os fragmentos – nem sabia o que ela queria dizer quando falava “fragmentos”, uma vez que, mentecapta, Sandra pensava um pouco como um gênio, e gostosa, um pouco como um animal – duas categorias nas quais eu não acredito me enquadrar, exceto por um ou dois segundos, e alternadamente. Além disso, para aumentar a minha confusão, ela não tinha formação acadêmica, literária, ou mesmo genericamente humanística que justificasse sua preocupação com o assunto. Dei-lhe parte das minhas dúvidas; ao que ela me manifestou a vontade, até então impronunciada, de ceder nos seus propósitos, contanto eu simplesmente repetisse à exaustão a seguinte frase: “Perdoai-me, pois sou um mau menino e não sei o que faço.” Dito sem hesitações (bem vale uma missa), veio a reconciliação, seguida por um período de quinze minutos de troca de insultos.
*
Ao longe ouvíamos tambores. Estávamos no chalé, na ilha, buscando conforto em jogos de tabuleiro trazidos comigo da cidade. Sandra estava vencendo; agora de novo, em outro jogo; e outra vez, em ainda outro jogo. Os tambores iam se aproximando, eu perto da bancarrota no banco imobiliário, eu o assassino no detetive, eu o descoordenado no Gênese®. Os tambores iam se aproximando, eu nu no poker, eu sujo no dorminhoco, eu quebrado na canastra e na roleta, cada vez mais perto. Bateram à nossa porta; tiramos cara ou coroa, o perdedor atenderia. Abri a porta dizendo: “Pois não?”
Os canibais responderam: “Vocês estão invadindo propriedade privada, senhor. Esta ilha está registrada no nome do grande líder Urkhanatom, sob cuja devida procuração seremos obrigados, infelizmente, a arrancar os seus dentes todinhos, um por um, e depois fazer outras coisas igualmente terríveis, sem anestesia, sem pressa, caso não queiram se retirar daqui de boa vontade dentro de vinte e quatro horas.”
Perguntei-lhes a respeito de Urkhanatom. Seria impossível, informaram-me, arranjar uma reunião com ele dentro de vinte e quatro horas: amanhã seria o aniversário da sua filha mais nova, ele estava no banheiro, vomitando. Perguntei-lhes também a respeito das suas condições trabalhistas.
“São péssimas,” eles disseram, “mas quem está reclamando?”
Silêncio.
“Não eu,” retomaram.
“O que é uma anestesia?” Eu perguntei.
Eles se olharam temerosos e sublimaram em direção à lua.
|